Há algum tempo, em um dos nossos primeiros Garimpos Netflix, eu indiquei um filme chamado Um Amor a Cada Esquina. Naquele artigo, eu argumentei longamente sobre a regra da palavra “amor” no título dos filmes. Via de regra, quando o gerador automático de nomes para filmes merda que toda distribuidora de filmes tem em seu porão sugere “amor” no título de um filme traduzido para o português, isso quer dizer que ele se trata de uma comédia romântica água com açúcar, formulaica e genérica. Claro que há exceções, mas são raras e esporádicas, razão pela qual eu fui ao cinema ver este Doentes de Amor desconfiadíssimo.

E qual não foi a minha alegre surpresa de encontrar mais uma exceção à esta regra. Doentes de Amor, apesar de seu nome genérico, é a melhor comédia romântica do ano e possivelmente das melhores dos últimos tempos (aqui de cabeça não consigo me lembrar de uma recente que chegue ao mesmo nível).

A história parece bem simples e previsível. Kumail (Kumail Nanjiani) é um motorista de uber de dia e tenta a sorte como comediante de stand-up à noite. Após uma apresentação, ele conhece Emily (Zoe Kazan), os dois se dão bem e, apesar de ambos parecerem um tanto relutantes com a ideia, começam a namorar. Após pouco tempo, eles, mesmo estando claramente apaixonados um pelo outro, têm um desentendimento e terminam. Restará agora ao amor reconectar os dois e fazer este sentimento prevalecer, certo?

Errado! O primeiro diferencial se encontra na razão pelo desentendimento. Kumail é um imigrante paquistanês muçulmano e Emily é uma americana típica. O desentendimento ocorre porque Kumail – o imigrante de pele escura e sotaque engraçado – tem vergonha de Emily – a americana branca, loira e de olho azul. Há uma inversão de expectativas aqui que é não só condizente com a realidade, mas também é muito bem colocada na história.

A comunidade paquistanesa, assim como ocorre com várias das outras comunidades de imigrantes dos EUA agora e sempre, se fecha dentro de si e seus membros, ainda que tenham escolhido imigrar para um outro país, muitas vezes vivem somente dentro de sua cultura e orientação religiosa. Além disso, ao contrário do que ocorre na cultura eurocêntrica que é também compartilhada pelos EUA, latinos, africanos, paquistaneses e todas as demais culturas oprimidas deste planeta encontram na unidade familiar seu principal refúgio, fazendo da família o elemento realmente mais importante de sua existência.

Assim, Kumail ama Emily, mas admite a ela que a relação não tem futuro, já que ele precisa, por pressão familiar e por querer desesperadamente fazer parte daquela família, se casar com uma mulher paquistanesa. Ou seja, a pessoa rejeitada e vítima de preconceito aqui é o branco de olho claro e não o marrom de cabelo preto.

Após essa quebra, os dois seguem suas vidas e eventualmente Emily adoece muito seriamente. E é aqui que a palavra “Doentes” do título faz algum sentido. É nesse momento e com a ajuda dos pais de Emily – maravilhosamente interpretados pela sempre excelente Holly Hunter e pelo comediante Ray Romano – que Kumail vai precisar questionar tudo o que ele é para entender o seu sentimento e se vale ou não a pena persegui-lo.

Tomando várias lições das comédias independentes americanas, o elenco coadjuvante é impagável, em especial o núcleo familiar de Kumail. Aproveitando as idiossincrasias paquistanesas que ainda são um tanto esquisitas a nós ocidentais, Doentes de Amor funciona um pouco como a série Master of None (indicada em um Garimpo Netflix passado) nesse quesito. A proposta é lançar um olhar sério e ao mesmo tempo bem humorado sobre as diferenças gritantes entre as culturas, apresentando, ainda, uma crítica muito necessária contra a intolerância e o apego obsessivo às tradições, sendo igualmente duro com a própria cultura “oprimida” e em geral tratada como coitadinha pelo politicamente correto e com o status quo vigente já alvo de tantas críticas.

Com um roteiro escrito pelo próprio Kumail Nanjiani e sua esposa Emily V. Gordon que retrata eventos reais da vida do casal, Doentes de Amor é uma excelente comédia romântica independente que, apesar de ter alguns problemas de ritmo do meio para o final, traz novos e bem-vindos ares a um gênero tão castigado por sua própria fórmula de sucesso.

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