Nasci em uma casa que tinha gatos e tive gatinhos até menos de um ano atrás, quando me mudei pra morar sozinha. Tenho dois tatuados no corpo: o Tabi, um gatinho que tive ao lado por mais de 10 anos, e a Lucky, uma gatinha que ainda tenho mas com “guarda compartilhada”, já que vive com meus pais. Acho que a característica da minha personalidade que é uma grande unanimidade dentre meu ciclo social, desde amigos de infância até pessoas que conheci no início desse mês, é saber que eu amo gatos. E que perpetuo os clichês da pessoa que vê vídeos de gatos fofinhos durante mais tempo do que devia se tiver a agenda vazia e compra itens de decoração de estilo duvidoso com referências a felinos (com isso quero confessar que tenho um quadro escrito “Who needs men anyways?” com uma moça segurando um gatinho).

Dito isso tudo, assistir a um documentário que já avisa que seu ponto de partida é um vídeo onde gatinhos são cruelmente assassinados claramente ia mexer comigo quase como um filme de terror com gore ou snuff – acho que talvez até mais. Dei play com medo. Nem sou muito de documentários sobre assassinos, aliás; acho que há uma tendência muito forte e perigosa neles de formar uma figura anti-herói e/ou romantizar algumas histórias. Mas dei uma chance pra Don’t F**k With Cats porque sou a velhinha dos gatos.

Onde tudo começa: um vídeo de dois filhotinhos sendo brutalmente assassinados se torna viral na internet. 🙁

De início somos apresentados aos principais envolvidos na busca pelo criminoso: Deanna, sob o pseudônimo de Baudi Moovan, e John Green; dois usuários do Facebook que, como milhares, assistiram ao vídeo e ficaram revoltados, sedentos por justiça. Esbarraram-se na própria rede social por conta disso e entraram em um grupo com outra penca de gente que queria fazer algo a respeito dessa crueldade. Assim inicia uma jornada virtual de investigação independente, que enfrenta como principal desafio o anonimato online que a internet traz a todos os usuários e que, infelizmente, abre caminho para todo tipo de atitude doentia pela ideia de impunidade junto à esse pressuposto de privacidade.

O diferencial do documentário e da história que ele narra é justamente por explorar o impacto da internet na vida de todos ali envolvidos. Primeiro, o próprio mutirão de pessoas tomadas por um espírito CSI, determinadas a passarem horas e horas analisando filmagens à procura de qualquer pista que, por mais que seja em nome de justiça, faz também refletir sobre porquês. Até onde a vontade de capturar o cara que fez isso é por justiça ou por obsessão e, ouso dizer, por absoluto tédio em relação às próprias vidas. Mais uma vez: acho MAIS QUE VÁLIDO a mobilização, mas conforme o documentário se desenrola essas reflexões passaram pela minha cabeça. Tem uma parte do grupo que é de ativistas por animais e tal. Mas pessoas “comuns” dispostas a colocar uma energia sobrenatural nessa busca; não seria isso também um resultado de toda essa era moldada por uma relação excessivamente próxima com o mundo virtual?

Pode ter a ver também, para além disso, com esse interesse macabro que o ser humano tende a ter por serial killers. Isso inclusive é explicado pela psicologia como uma admiração pela ausência do superego (que é o que nos reprime e dá rédeas para atuar seguindo princípios morais) nos psicopatas, o que os torna capazes de agir de maneira bárbara sem sentir remorso. Essa tal ausência é que cativa as pessoas “comuns” e resulta nessa espécie de admiração, numa conexão esquisita e numa busca por explicações para esses tipos de comportamentos incomuns.

A série é muitíssimo bem sucedida em pescar isso e provocar quem está assistindo, passando grande parte do tempo envolvendo para depois confrontar em relação a esse deslumbramento. As cenas que passam pelos vídeos dão bastante agonia, apesar de obviamente não serem explícitas. É realmente de quebrar o coração a ideia de alguém torturando bichinhos e dei uma choradinha em alguns momentos do documentário, num misto de tristeza e raiva. A rota da investigação vai mudando diversas vezes e deixa o telespectador agoniado por saber o que acontecerá – até porque eu não conhecia essa história e não pesquisei antes de assistir. Fico feliz pela série não ter escolhido caminhos extremos, já que não relativiza todos os atos hediondos do cara baseado, sei lá, em sua infância e traumas (bem comum isso), tampouco demoniza e constrói um verdadeiro vilão de quadrinhos, quase como uma exceção social. Ver que o cara é um qualquer, um tipinho vizinho da porta ao lado, tem potência o suficiente para não precisar cair em uma apelação sensacionalista.

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