Eu sempre fui fascinado pelo personagem Drácula. É uma figura tão consolidada na cultura pop em geral que já ganhou diversas interpretações, de todo tipo de qualidade. Apesar da quantidade de obras homenageando o Impalador, poucas foram realmente boas e, dessas poucas, a versão que mais me encantou foi o filme de 1992 do lendário Francis Ford Coppola, contudo, ainda assim, acredito que nunca fizeram uma versão de Drácula que pudesse ser considerada como a definitiva.

Quando eu soube que a obra-prima de Bram Stoker seria adaptada pela BBC pelos mesmos criadores da fantástica série “Sherlock”, eu fiquei extremamente animado. Pensar que seria uma obra seriada me deixou bastante empolgado por possibilitar mais tempo para explorar a história original, sem precisar apressar momentos extremamente empolgantes do livro (um problema do filme de 92). E eu comecei a criar algumas expectativas, o ator escolhido tinha um rosto que combinava com o vampiro; o teaser era bastante interessante, com alguns momentos bastante viscerais. Eu estava empolgado. Então a minissérie correspondeu as minhas expectativas? Não é que ela seja necessariamente ruim (não é), mas não consegui fugir da sensação de decepção.

Gostaria de dizer logo, o dinamarquês Claes Bang como o Conde Drácula é incrível. O ator é extremamente competente, tem uma presença bastante intimidadora, sendo ao mesmo tempo um homem bonito que traz uma certa sedução para a fisionomia do personagem. Ele cria momentos que só de aparecer já nos faz perder qualquer fé de que determinada situação possa dar certo. Assusta, intimida e seduz, e isso tudo está no campo da atuação. Já no ponto de vista de roteiro, o personagem tem altos, nos dois primeiros episódios, porém no terceiro o lado intimidador e assustador do personagem fica de lado, deixando ele muito parecido com o Lúcifer de Tom Ellis da série homônima, o que me fez perder bastante o interesse.

A série carrega, também, um humor britânico que não atrapalha momentos mais sérios. O sadismo e sarcasmo do próprio Drácula se encaixam muito bem nos momentos bizarros e de desespero. Essas características trazem mais medo para o espectador e mais falta de controle da situação, fazendo com que o conde Drácula seja efetiva e esperadamente a melhor coisa da série.

Falando no roteiro, Steven Moffat e Mark Gatiss – roteiristas e criadores do “Sherlock” protagonizado por Benedict Cumberbatch – fazem um trabalho muito mais interessante na adaptação do clássico detetive britânico do que aqui. Não há algo exatamente pavoroso no roteiro, contudo ele não empolga, com poucas cenas que me fizeram ficar na ponta da cadeira de medo ou de excitação. Os diálogos também não são horríveis mas poderiam ser mais polidos, com uma revisão ou outra do roteiro. Contudo, a decisão mais gritante da série e mais subversiva é um spoiler, por isso não posso me aprofundar, mas foi uma ideia que, apesar de inovadora, não acredito que tenha servido à narrativa de forma a justificar a presença da mudança do roteiro.

A fotografia talvez seja um dos piores elementos da minissérie. Pareceu-me não haver um diretor de fotografia, com decisões nesse tocante que vi como genéricas, sem vida e um tanto secas. No terceiro episódio, a palheta de cores trazida melhora um pouco, contudo. E, por fim, eu adorei a violência gráfica, que não tem o menor medo de mostrar coisas nojentas, com bastante sangue e gore. Um dos melhores momentos é quando uma freira tem um destino dos mais violentos.

Infelizmente, não foi aqui que encontrei a melhor representação desse ícone da literatura. Você que não tenha lido o livro e talvez não seja tão purista quanto eu, talvez consiga aproveitar mais essa minissérie, contudo, não vai demorar muito para eu esquecer dela e continuar sonhando o dia que eu irei sair do cinema ou encerrar uma série com a sensação de finalmente ter saciado a minha sede por uma obra definitiva sobre o personagem.

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