Semana passada liberamos a crítica da parte 1 do anime “Last Hope“, que, em suma, apresentou uma proposta interessante, muitos mistérios e um mundo pós-apocalíptico. No entanto, mesmo tendo alguma qualidade, a obra pecou na questão visual e da animação, deixando uma sensação agridoce ao seu término. Logo depois assisti ao trailer de Dragon Pilot e fui imediatamente cativado pelos elementos que tanto fizeram falta em “Last Hope”. Basta olhar para o poster que você perceberá que há um diferencial artístico em sua proposta.

Podendo escolher apenas um termo para descrever esse diferencial, sem sombra de dúvida seria “fofinho”. Muitos animes utilizam personagens com contornos arredondados em quase toda a anatomia para passar um aspecto jovial, inocente e puro. Isso se torna um artifício poderosíssimo nas mãos de bons roteiristas, como visto no possivelmente melhor anime de 2017, “Made in Abyss“, e no ótimo “Girls’ Last Tour“, também do mesmo ano. Enquanto o primeiro usa disso como contraste para violência, o segundo o faz para contrastar a personalidade madura e melancólica daquele mundo. E Dragon Pilot: Hisone and Masotan? Usou de forma inteligente esse artifício ou ficou apenas no plano estético?

Considerando que nesse universo existem dragões voadores (e não, isso não é um pleonasmo), Dragon Pilot deixou um pouquinho a desejar quanto ao uso da arte como subtexto, ficando apenas no âmbito estilístico. Isso já é ótimo e, cá entre nós, esperado. O estúdio por trás da confecção da obra é o prestigiado Bones, que, dentre muitas pérolas do seu portfólio, foi responsável por uma das propostas visuais mais estonteantes da década, o “Mob Psycho 100“. Praticamente tudo que é tocado por eles vira ouro, entregando aqui também um anime tecnicamente magnífico, incluindo uma excelente trilha sonora e uma animação fluida com grande atenção aos detalhes.

Já a história não recebeu uma atenção tão grande assim. Apesar de ser contada de forma satisfatória, ela não é cativante e careceu de um objetivo maior para os personagens se desenvolverem adequadamente. Apenas no seu terço final que há um direcionamento nesse sentido, mas a essa altura, com base em uma revelação bombástica, senti uma falta de inspiração e fiquei levemente incomodado pela forma na qual o anime se apoia em uma das mais conhecidas animações sobre lagartos voadores, “Como Treinar o Seu Dragão“.

Em ambos temos um mundo com esses assustadores animais – e nesse caso não estou falando do ser humano – que são domesticados para cumprir funções sociais. A história de aceitação do dragão por seu tutor é o fio condutor aqui, inclusive mostrando um plot twist semelhante sobre a dinâmica dessa espécie, assim como também uma grande variedade de tamanhos, formas e cores. Para conseguir guiá-los, é necessário um equipamento específico e a todo momento a conexão entre o condutor e conduzido é testada.

As diferenças em Dragon Pilot são sutis e ficam mais por conta das questões pessoais que cada pilota (são todas mulheres) possui, com algumas se sentindo o cocô do cavalo do bandido e outras não desejando estar ali e sim pilotando um avião de verdade. Falando em avião, o equipamento de condução é um dos mais bizarros que já vi – e olha que existe muita bizarrice em animes -, obrigando a pilota a ser ingerida pelo Dragão, que por sua vez se camufla em algum tipo de aeronave para não assustar os civis. Daí que surge o nome deles, VOT (Voadores Orgânicos Transformados).

Quando a obra resolve desenvolver personalidade, acaba criando conceitos que não faziam muito sentido. Uma das características obrigatórias para pilotar os VOTs é a necessidade de uma boa sincronia emocional com o bicho. No entanto, caso você esteja emocionalmente ligado à outra pessoa, a conexão entre você e o VOT não funciona. Não há aqui qualquer menção à telepatia ou coisa do gênero, nem de captação de feromônios pelo bichano (dá pra saber pelo cheiro de quem se gosta?) e, mesmo que tivesse isso tudo, faria diferença estar dentro do estômago dele? 

Considerando prós e contras, o saldo é positivo. Mas ao se apoiar pesadamente num longa famosíssimo e tentar ousar demais com propostas duvidosas, Dragon Pilot: Hisone and Masotan peca exatamente no inverso de “Last Hope”. Tecnicamente é um deleite para os sentidos, mas apresenta uma história que demora muito a mostrar para onde ruma e, quando aponta a direção, você já conhece o destino.

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