Enquanto um sujeito ocidental, eu até tenho alguma facilidade para lembrar os nomes de pessoas japonesas, mas enfrento enorme dificuldade de me lembrar dos nomes dos brilhantes artistas coreanos e chineses que vêm estrelando e realizando obras de qualidade indiscutível. Isto porque seus nomes são em geral monossilábicos e muito parecidos entre si. Lembro de ter lido em algum lugar que algo em torno de 30% dos sul-coreanos têm Park ou Lee (ou Li) em seus nomes, além do que a forma que grafamos os nomes aqui no ocidente por algum motivo segue uma outra ordem do que a que eles usam lá. Tudo isso é muito confuso para minha cabeça limitada e, por isso, leitor, não se penalize caso você também sinta o mesmo e veja Kang-ho Song na tela sabendo que o conhece de algum lugar, mas sendo incapaz de lembrar seu nome. Trata-se simplesmente do maior e mais popular ator coreano do momento, tendo já participado de vários filmes hollywoodianos como “Expresso do Amanhã” e sendo responsável pelas maiores bilheterias da Coréia já há alguns anos, desde que despontou com o fenomenal “O Hospedeiro”, que inclusive já indicamos em um Garimpo e que constou do nosso Top 10 – Filmes de Monstro.

Quando Kang-ho Song estrela um filme, a Coréia para e assiste. E ele tomou um risco enorme ao estrelar um filme sobre um traficante de drogas em um país em que o tema ainda é tabu e onde raramente é retratado em tela de forma realista e crua. A filmografia coreana lida com violência extrema e relações humanas com uma desenvoltura incomum, mas ao tratar de temas mais enraizados na brutal realidade do crime, ela ainda parece se portar de forma um tanto inocente ou ingênua e Drug King é mais uma prova disso, muito talvez pela Coréia não ser um antro de drogas e o tema ser meio que tabu naquela sociedade.

O longa conta a história, que parece ser baseada em fatos, de Lee Doo-sam (Kang-ho Song), um ourives que se mete com contrabando de relógios e joias na cidade portuária de Busan na Coréia e a quem o acaso decide dar a oportunidade de traficar drogas da Coreia ao Japão, com ele, em um dos poucos acertos do filme, justificando o tráfico de drogas para o Japão como uma espécie de revanche por todo o mal que o imperialismo japonês causou à Coreia. Aqui teremos então a clássica história do sujeito que sai da merda e, contra tudo e todos, consegue ascender ao topo da cadeia alimentar no seu ramo. No caso, o filme nos leva a crer que o ramo não existia até então, com Lee Doo-sam praticamente inventando o tráfico de metanfetamina na Coréia e se tornando o maior e talvez único fornecedor do Japão da droga.

A ingenuidade do longa é tamanha que Doo-sam é retratado durante o filme todo só como um sujeito boa praça que, por causa do seu tino comercial, ambição e senso de oportunidade, conseguiu se tornar o tal do Drug King (Rei das Drogas) do título. Não há praticamente violência envolvida num negócio ilegal, que ceifa a vida de milhares de pessoas anualmente e que nós, enquanto brasileiros, estamos carecas de saber que é a razão da maior parte dos homicídios praticados no país ou em qualquer outro lugar do mundo. Em Drug King, as coisas vão simplesmente acontecendo e aí, meio que do nada, Doo-sam está lá como o rei da cocada preta sem ter para isso deixado um rastro de sangue em seu caminho.

Este, inclusive, é um dos principais problemas do longa. Ele é estruturado quase como uma cinebiografia de Lee Doo-sam, mostrando os momentos-chave de sua carreira até o topo, mas muitas vezes sem explicar como que isso acontecia. Por exemplo, em determinado momento Doo-sam vira uma espécie de Walter White, sendo ele o responsável por sintetizar toda a metanfetamina que será vendida por todo o mercado nipo-coreano. Isso seria algo como se o Bill Gates fosse o cara que escrevesse sozinho o código do Windows, ou como se o Jeff Bezos fosse o cara que batesse na sua porta para entregar os produtos comprados na Amazon. Ainda que você pense ser óbvio que havia outras pessoas fazendo a droga que não só ele, o filme faz questão de te mostrar que não, que era só ele mesmo o responsável pela manufatura do Made in Korea, o Blue Sky de Doo-sam. E este tipo de coisa vai se repetindo o filme todo, com personagens e situações aparecendo que não parecem ter conexão uns com os outros.

O principal problema do filme, contudo, é o seu ritmo. Temos aqui 2 horas e 20 minutos de exibição que são muito difíceis de serem assistidos sem que você dê aquela conferida no zap. As situações vão se amontoando de forma um tanto inverossímil e boba, você dá aquela bisu no grupo da pelada para ver se chegou alguma putaria, volta ao filme e aí aperta o botão do controle para ver que ainda falta bem mais de uma hora de filme. É um ritmo arrastado em um filme com várias cenas que poderiam ter sido condensadas em uma e que, à exceção de Doo-sam, do promotor porradeiro Kim In-goo e da “lobista” Kim Jeong-ah (interpretados por outras duas grandes estrelas do audiovisual coreano, respectivamente Jung-suk Jo e Doona Bae), quase personagem nenhum é desenvolvido e mesmo estes são bem unidimensionais em seu desenvolvimento.

A direção também parece bem frouxa, tentando imprimir um tom cômico a boa parte do filme e criando uma sensação de estranheza quando este queria ou precisava ser mais dramático, de modo que até o normalmente excelente Kang-ho Song apresenta uma performance exagerada, um tanto quanto caricata demais, o que me parece ser por causa da direção confusa e do roteiro que atira para todos os lados, mas não acerta em quase nenhum.

Mesmo com grandes nomes, grande orçamento para o cinema coreano e uma produção competente, Drug King é um filme arrastado, confuso e segue todos os clichês da filmografia americana para esse tipo de obra, menos a violência, as frases de efeito e a familiaridade com o assunto.

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