Thomas (Austin Butler – o Wil Ohmsford de “The Shannara Chronicles” que só eu assisti) é o garoto alto, atlético, loiro, inteligente, sensível e popular da escola. O “Prom King“, o presidente da classe, o orador da formatura, o capitão do time de futebol, o irmão perfeito que compartilha pérolas de sabedoria com seu irmão mais novo e seus amigos. Todos gostam dele e seu futuro seria perfeito com a gatinha perfeita dos seus sonhos. Mas Thomas, como todo guri de colégio, adora uma birita e fuma mais maconha do que Cheech e Chong. Num revés do destino, ele sofre um acidente automobilístico na noite de formatura e morre, deixando seus amigos e família desamparados. Um ano depois, Cole – seu irmão mais novo – e Lucas – melhor amigo de Cole – junto com Robbie e Arthur são os veteranos mais populares da escola e tudo o que eles querem fazer é fumar maconha, encher a cara, arrumar buceta e depois recontar suas aventuras fumando mais maconha.

Eu sei… eu sou foda… e eu também sou meio-elfo…

Lucas é, hoje, o presidente da classe e, além de ser o cara mais popular da escola, é o mais inteligente e adorável e precisa organizar a festa de formatura enquanto se prepara para a final do campeonato de futebol contra a escola rival, final esta que ele, obviamente, ganha de virada faltando 30 segundos para o fim da partida. Cole, além de precisar lidar com a morte do irmão mais velho, encontra uma garota por quem se apaixona, trazendo à tona um lado meio babaca de Lucas que, enciumado, passa a escrotizar as decisões do amigo. Arthur é o piranhero do grupo que acaba se apaixonando por uma garota mais nova e mais esperta que ele e que o faz de gato e sapato enquanto ele lida com o divórcio dos pais. Robbie é aquele guri asiático que cita filosofia e tem uma paixão secreta por aquela professora de uns 30 e poucos anos. Sabe aquela de óculos, com cara de virgem meio reprimidinha mas gatinha com quem ele fica trocando citações de Kant, com direito a cena de punheta no banheiro da escola imaginando um strip da tiazinha? No meio de toda a sacanagem, os comentários cafajestes, as bebedeiras, as festas e os “bongs” o filme é, na verdade, uma comemoração da brodagem entre os quatro, que permanecerá em seus corações mesmo depois que todos forem pra faculdade. Relaxe, o que eu contei não foi um Spoiler. Não exatamente…

Desde 1986, ainda no topo dos filmes adolescentes.

O baile de formatura e o último ano de highschool são uma fixação já antiga dos cineastas americanos. Eles parecem determinados a recontar – ou reimaginar – seu último momento de adolescência fazendo-o sempre parecer mais bacana e mais dramático do que qualquer pessoa normal deve ter vivenciado. Os enredos variam, mostrando o ponto de vista dos nerds que dão a volta por cima, ou dos garotos populares que parecem uns escrotos no inicio mas depois descobrimos que são caras bacanas e só eram babacas por pressão dos amigos. Muita maconha, muita cachaça, muitos peitinhos, atores de 30 anos fingindo ter 17… Poucos, no entanto, mostram tal época sob o ponto de vista feminino. Com exceção de “A Garota de Rosa Shocking” e “Ela é Demais”, não me lembro de nenhum outro filme desse tipo que tivesse uma protagonista mulher. E eu assisti muito desses filmes.

Eu cresci na “época de ouro” de filmes adolescentes. De “Clube dos Cafajestes a “Jovens, Loucos e Rebeldes”, passando por todos os clássicos de John Hughes, eu devo ter assistido a todos os filmes do gênero. Filmes de coming of age estão entre os meus preferidos.

#MollyRingwaldGotNothinOnUs!

Dude – A Vida é Assim, original lançado na sexta-feira pela Netflix, parece ter sido uma tentativa de realizar tal feito, e poderia até ter sido. Os elementos estavam todos lá, os atores atraentes de quase trinta se passando por 16 ou 17, trilha sonora bacaninha e atual, uma backstory sensível dando mais profundidade a toda a superficialidade da vida no segundo grau. O problema é que Olivia Milch (direção e roteiro) e Kendall Mckinnon (roteiro) decidiram contar a mesma história de Lucas, Cole, Arthur e Robbie. A mesmíssima história com os mesmíssimos estereótipos e os mesmíssimos personagens, só que os rebatizaram de Lily, Chloe, Amelia e Rebecca.  A única diferença é que Lily (Lucy Hale) era apaixonada por Thomas e ele foi “the one that got away”. Eles se amavam, nunca se beijaram ou se declararam um para o outro. Lily tenta esconder o sofrimento de ter perdido o grande amor de sua vida fumando todo o bagulho do mundo, pegando geral e sendo a líder controladora do grupo. Ah, e Rebecca, a asiática que proclama Kant, é a fim de um professor chamado Mr. Bemis (que rima com “penis”… sim, há essa piada no filme!) que é um “O Virgem de 40 anos” da biblioteca da escola e fica dando em cima da menina com citações em duplo sentido. No fim fica tudo certo e ela descobre que o cara tem apenas 24 anos (mas maturidade de 20, ele completa!) e “opa!” eu acabei de fazer 18, olha que coincidência! Que tal a gente se pegar de fato? (isso não conta como Spoiler, né?).

Dude, minhas pupilas ainda estão muito dilatadas?

As quatro amigas são as meninas populares e ricas de uma daquelas escolas prafrentex americanas. O nome da escola é “O Caminho Menos Viajado High”… sério! com direito a um professor riponga biba (Jack McBrayer) que, aparentemente, leciona a matéria “como usar drogas 101”. Yep, ele dá uma aula sobre PCP em que todos os alunos estão chapados, esparramados pelo chão, em pufes. E isso num filme que não tem o senso de humor escrachado dos irmãos Wayans. Nem mesmo pretende ser uma comédia. As quatro amigas fumam todas, incentivadas pelos amigos, pais, professores e pela vida que parece ser um grande sofrimento para todas elas, apesar de todas dirigirem Volvos e Audis.

Oh, Shiiiit! Nossas mães tão comendo nosso bolo de hemp!

Se todas as referências e chavões não bastassem, Lily mora na casa da familia Walsh de “Barrados no Baile” (a mesma casa, com a mesma porta de entrada! Acho que por fetiche pessoal da diretora, que deve ter minha idade e ter sido apaixonada pelo Jason Priestley). O texto é daquele tipo “super maduro” pós-Dawson’s Creek que todo roteirista tenta nos enfiar goela abaixo desde os fins dos anos 90. E, cara, eu já fui adolescente, eu dou aula pra adolescentes e, por mais que eu me amarre nos moleques, na boa, ninguém daquela idade consegue construir frases daquelas no calor do momento, ainda mais com tanta fumaça na cara (por mais que as mídias digitais e todas a opções de edição nos façam acreditar que sim). Eu era o camarada que se deu de presente “O Banquete” de Platão e passou o seu aniversário de 18 anos lendo-o na borda da piscina do clube e nem fudendo que eu falava daquele jeito. Então, puta que os pariu, parem com esta porra!

Wazaaaa!!!

Eu gostaria, de verdade, de ver um filme – só um filme – de juventude que contasse como é ser mulher numa “high school”, mas parece que a fixação por bagulho, cachaça, putaria e estupidez completa não faz distinção de gênero e os estereótipos são sempre inevitáveis. Ou talvez, sei lá, ser adolescente nos Estados Unidos seja mesmo uma bosta. Vai saber.

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