Todos os meus queridos amigos do site sabem que eu sou um tremendo baba-ovo dos longas de Tim Burton. E já que todos aqui são metidos a besta e só escrevem sobre filmes eslovenos situados nos anos 20, basta ver que tudo o que é produzido no site relativo ao trabalho desse ilustre diretor tem o meu dedo no meio. Não ficarei aqui dando voltas sobre como seus filmes me afetam a um nível pessoal, mas preciso tecer certos comentários para você entender o porquê dessa nota não ser tão alto quanto poderia. Recomendo, inclusive, para maior compreensão dos meus argumentos, que você leia os artigos que estarão linkados ao final dessa crítica.

Uma característica enorme das obras de Tim Burton (ou de boa parte delas) é tornar o fantástico e fantasioso em algo crível e de forma muito versátil, indo de dramas e comédias até animações e enveredando para musicais. Contudo, desde 2007, com o lançamento de “Sweeney Todd“, foram 6 longas que falharam miseravelmente naquilo que ele fazia de melhor, isso sem contar as merdas fumegantes que ele lançou antes dessa data, como “A Fantástica Fábrica de Chocolate” e “O Planeta dos Macacos“. Já deu para perceber que regravações não são o seu forte, né? Bem… Dumbo chega para mostrar que essa sua inabilidade de recriar um clássico para um cinema moderno é mais real do que nunca.

O grande problema do longa reside na falta de conexão dos personagens entre si e com o telespectador. Imagino que você conheça a história do longa, mas caso você nunca tenha assistido a animação, acompanhamos um bebê de elefante que nasceu com orelhas gigantes, que consegue voar ao agitá-las e que tenta reencontrar sua mãe, de quem foi separado há pouco tempo após um acidente no parque. Sendo assim, o fator chave para o filme funcionar era a criação de empatia com o Dumbo e com as relações que ele estabelece com os humanos que o cercam e, infelizmente, isso não ocorre. Temos uma penca de personagens secundários caricatos à la Tim Burton em um circo que são unidimensionais e que entregam diálogos rasos, conduzidos por um roteiro pouco articulado e calcado na suspensão da realidade, sendo muito pouco plausível. É nitidamente uma obra direcionada para um público infanto juvenil.

Oportunidades de criar algo emocionalmente denso não faltaram, mas a todo momento topamos com histórias pessoais que abrem um leque de possibilidades que são mal exploradas, deixando algo puramente jogado, ou não são exploradas de forma alguma. Peguemos por exemplo o núcleo principal que cerca o Dumbo. Holt (Colin Farrell) é um ex-combatente da 1a Guerra Mundial, conhecido antes de ir para Europa pelo seu domínio e habilidade sobre equinos, mas que retorna sem um dos braços e encontra seus filhos sem a mãe, falecida devido a uma enfermidade. Perceba o quanto cada um desses infortúnios poderia ter sido expandido e aprofundado na persona de Holt, mas ficam totalmente soltos e sem direcionamento, sendo apenas mais uma característica do personagem do que um fator modificador profundo de sua vida.

Além dele, outros 3 personagens que trabalham diretamente com Dumbo, a acrobata francesa Colette (Eva Green), fundamental para o desenvolvimento da história, e os filhos de Holt, Milly (Nico Parker) e Joe (Finley Hobbins), crianças que passam longe de serem carismáticas, possuem desenvolvimento quase nulo, com fragmentos de informações largadas apenas para justificar o sotaque e a habilidade de conseguir andar no trapézio da primeira ou flertar com a temática feminista sobre escolha de carreira de Milly. Vale ressaltar que essas crianças comeram o pão que o diabo amassou também e são seres sem nenhuma sequela psicológica. Com isso, nosso elefantinho fica isolado sem ter com quem desenvolver uma relação pela qual valha a pena torcer.

Não ajudou também o longa focar muito mais na questão financeira de ter um elefante que voa do que no sofrimento do Dumbo. “Um rosto que somente uma mãe poderia amar”: esse era o tom do trailer, que dava a entender – e que a animação fez com uma competência muito maior – que veríamos um drama de um filhote horroroso, com um problema congênito, separado da sua progenitora. Porém, essa escolha de focar mais na questão social e mudança nuns EUA que rumava para ser uma das maiores potências do século XX proporcionou seus melhores momentos e personagens.

Todo fã de Tim Burton certamente lembra do trio Danny DeVito, Michael Keaton e Alan Arkin, respectivamente o Pinguim e Batman das adaptações feitas por Burton do universo da DC, e Bill, “pai adotivo” de Edward no longa “Edward Mãos de Tesoura”. Eles incorporam os pilares da sociedade americana em transição, com Medici (Danny DeVito) ainda tentando prolongar a vida do circo itinerante que usa animais e excentricidades, encontrando dificuldade em sobreviver diante do modelo Disney, com parque temático que atrai o público e não vai até ele, encabeçado pelo sempre ótimo em cena Vandevere (Michael Keaton). Mas, como todo bom capitalista, ele requer ajuda de um banco para dar forma à sua visão e aí entra o banqueiro Griffin Remington (Alan Arkin). A dinâmica entre eles, com cobranças, falsas promessas, ambição e malandragem deu um pequeno alívio nas massacrantes cenas de diálogos pobres.

Em suma, Dumbo é um filme sem inspiração em sua fotografia, trilha sonora e efeitos especiais, que se valeu do uso pesado de um CGI que nem sempre se encaixa bem nas cenas. Esperamos que Tim Burton pare de regravar qualquer coisa e volte a fazer seus longas originais emocionalmente devastadores, calcados na mais pura e crível fantasia.

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