Como de costume, continuo na aventura de resenhar a série Easy – que teve sua segunda temporada comentada por mim bem aqui. Digo aventura pois, ao contrário de certos conteúdos que me desagradam mas são ossos do ofício, trata-se de uma série que genuinamente me dá prazer de assistir. Nessa terceira temporada, a narrativa me surpreendeu (positivamente) em trazer debates bem mais profundos que anteriormente. A pegada da série de manter uma abordagem o mais orgânica possível se manteve, sempre sem deixar um inteligente humor de lado

E agora, para além disso, alguns personagens nos recebem como se tivessem acabado de fazer terapia desse mais de um ano pra cá, com questões existenciais muito mais intensas do que antes; e deu certo! Dividida em nove episódios (um a mais do que nas anteriores), a série dá continuidade à alguns núcleos previamente explorados. Temos novamente o casal Kyle e Andi, que havia decidido por investir em um relacionamento aberto; temos o casal super shippável Jo e Chase e também novos personagens como Hugh, um solteiro esquisitão que fracassa na maior parte de seus encontros e Scrap, um vendedor competitivo que desafia o próprio chefe.

Esse é Hugh, o servo.

De longe os melhores episódios são aqueles que retomam personagens já conhecidos e há algumas razões para isso. Uma delas é pela escolha de que personagens manter na série, que foi cirúrgica. A outra é por atiçar curiosidade no telespectador que, muito a partir da empatia já criada por eles, quer bastante saber que rumo tomou aquela prosa. É claro que tais argumentos não seriam o bastante se a tela apresentasse uma produção mal executada, com roteiro capenga, apelativo e tudo mais – mas, para minha felicidade, não é o caso.

Continuo tendo como preferida a história entre Kyle e Andi, que na terceira temporada mostra a perspectiva bastante aprofundada de um relacionamento aberto em andamento há um tempo e de questões mais banais do amor, seja ele monogâmico ou não. Egoísmos, imaturidades, limitações e, sim, fins. Acho que o tabu “amor livre” é a coisa menos tabu que os episódios envolvendo os dois explora, mas sim o enorme (e subentendido, mas nunca abertamente falado) tabu de aceitação de fins – de relacionamento, de amor, de amizade -, que vejo que dentro de casamentos de longa data é algo que é evitado a todo custo.

Kyle e Andi tentanto manter o relacionamento – seja a dois ou a três…

Acredito que há um efeito colateral, portanto, sobre os episódios com personagens novos; devido a falta de desenvolvimento de personagens, eles se tornam os menos interessantes. De certa forma é até meio injusto esperar que sejam do mesmo nível, mas de toda a forma é notável a oscilação de qualidade quando os episódios com uma história nova vêm em sequência na tela da Netflix. Contudo, não são de todo ruim; só não mantêm o mesmo nível. Não têm potência para abalar a série como um todo, para meu alívio, o que torna a experiência de assistir Easy aprazível e estimula temas interessantes para conversas numa mesa de bar, numa cama ou na terapia.

Easy continua ácida, inteligente e sensível como mostrou ser desde o início e continua, também, a defender a bandeira de que relacionamentos não são nada fáceis – e que tal afirmação não precisa ser necessariamente sinônimo de um juízo de valor negativo, mas que pode ser sim. Afinal, um relacionamento é o produto de um choque inevitável entre dois indivíduos e nem todos estamos prontos pra isso. A série faz um passeio entre paixões joviais, maduras, entre pessoas do mesmo sexo ou do oposto, de camadas sociais distintas, solteiras, casadas, namorando, perfeitamente bem ou entediadas. Justamente por isso ela consegue expressar com honestidade e diversidade um dos pilares de ser humano, que é fortemente conectado ao sexo e ao amor. E, de quebra, desvia de intenções que mirem uma lição de moral, uma cagação de regra sobre o que é certo e errado – sem, é claro, fazer uma irresponsável apologia à relacionamentos tóxicos ou coisa do tipo.

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