Robert Rosenthal e Lenore Jacobson, lá nos idos de 1968, após alguns experimentos, cunharam o termo “efeito pigmaleão”, que é o “o fenômeno pelo qual a expectativa de uma pessoa pelo comportamento da outra pessoa chega a servir como uma profecia autorrealizável”, ou seja, “quando esperamos certos comportamentos de outras pessoas, provavelmente agimos de maneiras que tornam o comportamento esperado mais provável de ocorrer.” Usando desse conceito – seja lá quem tenha escolhido o título desse filme para o Brasil tava inspirado – na obra francesa Efeito Pigmaleão, temos uma miríade de situações correspondentes com a temática abordada pelo longa: o convívio escolar entre o corpo docente e o discente.

De forma simples e direta, acompanhamos um ano letivo de uma grande escola na periferia de Paris que recebe alunos em situação de pobreza e tudo mais que isso traz a reboque. Não há aqui rupturas e obstáculos a serem vencidos, histórias de superação, professor virando herói ou algum time de futebol provando o impossível. Tudo o que vemos é uma realidade crua de uma instituição – a escola – que luta para se manter atraente, relevante e modificadora para uma geração com demandas e necessidades muito diferentes daquelas de 20 anos atrás. Com a bela atuação de Zita Hanrot, interpretando a conselheirara educacional Samia Zibra, e um roteiro bem azeitado, cobrindo inúmeras situações corriqueiras dentro de uma sala de aula, indo desde briga por causa de borracha, até casos de agressão, passamos pelas aflições e expectativas de alunos e professores dentro e fora de sala.

Um dos maiores trunfos da película é mostrar a escola como um palco de disputas e local da pluralidade. Disputas em todos os graus possíveis, tanto institucionalmente, com professores saturados e outros apaixonados, como com o corpo discente, com os alunos se atacando e atacando a escola por meio dos professores, que são o principal elo dessa corrente. E como estamos falando de uma escola em uma área pobre parisiense, temos questões étnicas importantes com a 1ª ou já 2ª geração de filhos de migrantes de ex-colônias francesas, mas que não se aprofundam. Como a questão árabe e negra se dá nesses espaços? E o Islã? São questões nas quais o filme resvalou e que gostaria de ter visto mais. Embora tenham composto algumas das melhores cenas, esses dramas se deram mais fora do que dentro da escola, tanto com os alunos quanto com os professores, o que tirou um pouco do sabor do pluralidade sendo tratada em sala.

Efeito Pigmaleão me fez recordar que eu, enquanto professor de Geografia há mais de uma década e aluno por tanto tempo antes, já estive em todos os lugares apresentados. Já fui o professor ofendido, o professor injusto, o professor parceiro, aluno que rende, aluno com dificuldade, aluno com problemas sérios em casa… e cada uma dessas posições impõe desafios que muitas vezes fogem de nossa compreensão, mas se há algum elemento em comum entre eles é o fato de serem transitórios. No meio desse caos de destruição criativa percebemos que não somos filhos de nossos pais, mas, sim, de uma geração. Essa geração em particular vive um modelo educacional que não lhes serve mais e as expectativas dos educadores sobre eles nesse contexto produz uma máquina de moer os desejos e as esperanças de todos os envolvidos.

Mas assim como o longa demonstra, nem tudo está perdido. Ainda podemos rir, nos ajustar, ajustar o sistema e valorizar o ambiente escolar, onde relações se estabelecem e que significam e marcam muito seja você um aluno, professor, inspetor ou coordenador. Somos de gerações diferentes, mas vivemos no mesmo espaço e compartilhamos o mesmo tempo. Não somos tão diferentes assim, mas, infelizmente, essas diferenças pesam.

Não deixem de conferir esse belo filme, fiquem em casa e fiquem bem.

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