“Desculpe, 100 anos de idade, mas ainda é muito ousado para os dias de hoje.” Cobrindo corpos nus pintados pelo artista, essa frase ilustrou painéis em lugares públicos na Grã-Bretanha e na Alemanha durante a divulgação de uma exposição das obras de Egon Schiele em sua Áustria natal, celebrando o centenário de sua morte. Ah, isso aconteceu em janeiro deste ano. Alegando pornografia, os donos dos espaços publicitários só aceitaram a campanha com a “devida” censura.

É sobre o polêmico expressionista que o diretor Dieter Berner se debruça na cinebiografia Egon Schiele: Morte e Donzela, trazendo no subtítulo um de seus mais famosos e belos quadros. O filme é um apanhado da vida do artista, de seus primeiros passos na pintura até a morte prematura aos 28 anos, vítima da epidemia de gripe espanhola de 1918. Se não tivesse recebido o título que tem, ele poderia ter se chamado As mulheres de Schiele, já que a produção escolheu priorizar o impacto de três delas na vida do pintor: sua irmã Gerti (Maresi Riegner), sua esposa Edith (Marie Jung) e, acima de tudo, sua maior musa e possivelmente amor de sua vida, a jovem de dezessete anos Wally (Valerie Pachner).

A produção acerta em cheio na escalação dos atores. O protagonista Noah Saavedra constrói um Schiele impecável, cheio de nuances, apaixonado, forte. Além disso, é bastante impressionante a semelhança dele com a figura que encarna. Suas melhores cenas se dão com Maresi Riegner que, no papel da irmã e primeira musa, tantas vezes retratada nua por Egon, elabora um requintado jogo de atuação que sugere de forma enfática as alegações de incesto entre a dupla, ainda que o roteiro não tenha tido coragem de entrar abertamente na questão. Valerie Pachner também forma excelente parceria com Saavedra, sendo responsável pelos momentos mais emocionalmente impactantes do filme.

Outro acerto do longa é a relevante discussão que levanta sobre os limites da arte ou se deveria haver limites para a arte. Schiele foi um dos artistas que mais testou as potencialidades da pintura, causando escândalo em Viena e por onde mais fosse exposto. Ao retomar essa questão, Dieter Berner cria links interessantes entre a sociedade do início do século XX e nós. A cena na qual, acusado de pornografia, um de seus desenhos é queimado em um tribunal causa arrepios que vão muito além da experiência cinematográfica, em tempos de QueerMuseu.

Infelizmente, os pontos positivos da obra não conseguem esconder suas fragilidades. Egon Schiele: Morte e Donzela começa pecando no ponto de partida de qualquer filme: seu roteiro apenas mediano. Se sobrou coragem para a discussão sobre os aspectos apontados no parágrafo anterior, o roteiro se acovarda em pontos polêmicos da vida do pintor, notadamente a acusação frequente de que Schiele era pedófilo. Nesta questão, o filme opta mais por uma “redenção” do artista do que por uma discussão aprofundada.

O roteiro médio se materializa na tela através de uma edição extremamente fraca o que gera….tantantan!!!! um sério problema de ritmo (meu alter ego  do mal, a Tia do Ritmo, acaba de tomar conta deste parágrafo.). A produção patina em ritmo completamente descompassado, que não se disfarça nem pela força das imagens, já que a fotografia de Carsten Thiele se revela apenas funcional.

Noves fora, Egon Schiele: Morte e Donzela acerta em alguns pontos, mas ainda não é a cinebiografia definitiva deste que, sem dúvida, foi um dos pintores mais fortes da história da arte. Meus leitores MetaFictions sabem que sempre gosto de encerrar minhas críticas com um poema ou um trecho literário que resuma o sentimento geral. Hoje peço licença para encerrar com o quadro que dá nome ao filme. Porque alguns poemas são visuais.

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