Sou um fã relativamente tardio de Breaking Bad. Só assisti a série depois de seu término na TV, em 2013. Lembro da minha relutância em mergulhar em longuíssimos 62 episódios ao longo de 5 temporadas, mas as referências eram sempre excelentes. Cedi, somente pra perceber o quão imbecil eu fui em não tê-lo feito antes. Breaking Bad é uma das séries mais sensacionais já feitas para a televisão e, 6 anos após seu término, figura, indiscutivelmente, como um fenômeno da cultura pop com inúmeras referências em todo lugar. Não à toa esteve em nosso Top 10 – Melhores Séries do Século XXI.

Não seria difícil de imaginar que o anúncio de um filme que se propunha a seguir a história da série causaria frisson nos milhões de fãs espalhados pelo mundo – eu incluso. Só que eu sou um bicho desconfiado. Ao mesmo tempo em que estava ávido por rever aqueles personagens, aquela Albuquerque inóspita e opressora, me encontrava também com uma pulga atrás da orelha tremenda por conta do potencial caça-níquel que um filme desses representa, mas também por achar que o final da série era perfeito demais para ser explorado ou continuado. Eu sou extremamente cioso de que obras em geral – quer sejam peças teatrais, livros, filmes ou séries – tenham bons finais, que saibam terminar. Isso é fundamental para que eu considere uma narrativa ideal. E Breaking Bad será pra sempre Breaking Bad porque, acima de tudo, tem um desfecho absolutamente brilhante (ouviu, Lost!?!?).

Nesse sentido, El Camino faz algo importante ao não pretender ser exatamente uma continuação da série. Diferente disso, ele é, na verdade, um competente escape movie, que inclusive dialoga com alguns clássicos do gênero. E talvez seu maior mérito seja em manter uma narrativa extremamente coerente com o personagem e o ambiente tão brilhantemente desenvolvidos ao longo dos anos em que a série foi ao ar. O Jesse Pinkman que inicia o filme é exatamente o mesmo que termina o 62º episódio. O personagem está lá em sua plenitude, vacilante e atormentado como sempre foi. Tão humano e tão próximo de todos nós. O Jesse protagonista é o mesmo anti-herói para o qual torcemos, cagada após cagada cometida. Talvez porque ele só quer acertar o tempo inteiro e renascer de alguma forma, expiando seu passado.

No entanto, o paradoxo ao assistir El Camino consiste em ser necessário estar grudado à série que lhe dá vida e sentido, tê-la fresca na memória e amá-la profundamente ao mesmo tempo em que também é imperativo se desgrudar dela um tanto para acompanhar a saga de Jesse no filme. Se quisermos ver Breaking Bad em El Camino, sentiremos falta de alguns elementos e, principalmente, de Heisenberg, e uma ponta de frustração poderá surgir no espectador. Apesar disso, encontramos aqui alguns ótimos easter eggs e uma verdadeira homenagem a alguns dos personagens da série, em breves mas marcantes passagens. Tudo na medida certa, sem exageros.

É muito curioso pensar que na concepção original da série, Vince Gilligan mataria Jesse ainda na primeira temporada. Foi o carisma e dedicação do ator Aaron Paul que fez com que o personagem sobrevivesse ao próprio White, até ganhar um filme onde ele é, de fato e pela primeira vez, protagonista. E acompanhar seu tormento neste filme nos faz lembrar de toda a complexidade do personagem além de sua força. Um final digno e correto para Jesse. Ele merecia.

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