Há alguns anos venho observando de perto as produções asiáticas, em especial as coreanas. Nada a ver com o k-pop que a galera anda se amarrando por aí. Minha influência foi outra. Minha influência foi “Oldboy” e a maestria inigualável de Chan-Wook Park a respeito da qual falei em um Assista! e no RPR em que apontei o absurdo de sua regravação americana. A partir do transe supremo de deleite ímpar ao ser atropelado e engolido pelas sequências perfeitas daquele filme, no ano de 2005 em que estreou no Brasil, venho acompanhando de perto outros títulos. E o mais marcante nessas obras é o fato de serem extremamente viscerais. Um coreano não fica no meio termo, ele vai fundo naquilo que quer dizer. “Não há espaço nesse cacete de mundo para meio caminho”, dissera certa vez o músico Paul Baloff. Parece-me que os artistas coreanos fazem jus à fala dele.

Em Chamas é o novo lançamento nos cinemas brasileiros vindo diretamente de lá. Não difere de seus conterrâneos no que tange à profundidade buscada pela obra. Não à toa, suas quase duas horas e meia de enredo servem – apesar de discordar um pouco do tamanho do filme – para impedir o menor flerte possível com o raso. A simplicidade da história, porém, não afasta a trama que, quase sempre, se mostra rocambolesca. Como camadas que vão se revelando sutilmente, uma após a outra, a narrativa vai mudando seus contornos e levando o espectador a lugares inesperados. Não raro são assim as produções coreanas.

O trio (amoroso).

Lee Jong-su (muito bem por Ah-In Yoo) é um jovem que passa por alguns problemas familiares. Sua mãe foi embora na sua juventude e o pai se encontra preso devido ao seu temperamento explosivo e violento para com as pessoas ao redor. Assim, Jong-su passa seus dias realizando as tarefas necessárias ao sustento próprio. Em um dia como outro qualquer, uma jovem, a bela Shin Hae-mi (no tom certo por Jong-seo Jeon), o reconhece na rua e diz terem estudado juntos na infância. Os dois começam a criar um laço de amizade que se mistura com uma linha amorosa. Ambos conseguindo afastar um pouco do vazio promovido pela solidão que cada qual tinha, até ali, como única companhia. Porém, um terceiro elemento, o jovem e riquíssimo Ben (em um casting perfeito por Steven Yeun) entra no relacionamento dos dois e começa a levar Jong-su ao seu limite.

Um dos pontos mais interessantes de diversas produções coreanas é o fato de ter, volta e meia, a presença de classes sociais distintas, quebrando a lógica de um contexto que se assume abastado aos olhos ocidentais. Há, em diversos momentos, críticas à diferenciação social de forma bem sutil e delicada. E a presença perturbadora de Ben, no meio da relação dos dois amigos (ou casal em alguns momentos) que carecem dos mesmos acessos e recursos que aquele detém, reforça ainda mais a crítica social do diretor Chang-dong Lee. É esse elemento estranho – não apenas por ser um desconhecido que começa a se revelar aos poucos para os dois, mas sobretudo por ter uma vida completamente distinta dos protagonistas – que vai abalando a convivência de Jong-su e Hae-mi. O antagonista, portanto, surge como o ser enriquecido que faz questão, ainda que sutilmente, de se mostrar superior; como se um mestre dos fantoches a brincar com seus títeres por diversão, em expressão de um humor deveras cruel. Cada vez mais próximo dela, ofertando um universo aparentemente impossível, Ben afasta o laço antes sólido de Jong-su, que se coloca em posição submissa ao assumir que não poderia competir com um jovem de tantas posses. “Como ele consegue ter essa vida nessa idade?”, questiona-se nosso personagem em dado momento.

A busca por respostas.

Após mais de uma hora de construção da relação dos dois protagonistas e a apresentação das ações provocativas do antagonista – como falado anteriormente, este primeiro ato poderia ter sido um tanto mais enxuto – eis que surge um turning point para esta que parecia ser uma história de trio amoroso. Hae-mi, após breve discussão com Jong-su, fica fora de alcance. Tentando encontrá-la de todos os modos possíveis, o protagonista se dá conta de que aquilo que se mostrava uma hesitação, devido à sua grosseria ciumenta, na verdade pode ser algo muito mais sério. Sinais deixados por Ben são interpretados por Jong-su que começa a suspeitar que o rico rapaz pudesse ter cometido uma crueldade com sua garota. E isso vai levando o menino pobre a uma espiral de ódio, insegurança e remorso. Nesse momento da história, Chang-dong Lee vai adicionando combustível à narrativa para colocá-la, efetivamente, em chamas (perdão pelo trocadilho com o título, mas essa é uma das leituras possíveis).

“A confecção do homem é fogo” (Steve Harris).

A chama do fogo do sentimento machucado vai afundando Jong-su em lugares cada vez mais escuros e sua jornada começa a queimar igualmente o espectador, completamente envolvido pela trama que se assume mais e mais obscura. Com a maestria típica dos artistas coreanos, o diretor apresenta um conto com os principais elementos de uma narrativa daquele país: sentimentos aflorados, personagens no limite, conflitos de classes e embate moral. Sem julgar uma parte ou outra, ele larga aos nossos olhos, a partir das ações de seus personagens, decisões que podem resultar em abjeção, apesar de uma possível dose de compreensão.

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