Em priscas eras das quais vocês talvez não se lembrem, quando as TVs a cabo não existiam e o streaming sequer era um sonho, havia uma modalidade de produção audiovisual que era esnobada (e com razão) pela comunidade cinéfila americana. Eram os filmes feitos diretamente para a TV. Via de regra, tratavam-se de algo que mais se assemelhava a um episódio comprido de alguma das muitas e merdíssimas novelas americanas que, felizmente, só chegaram à atenção do público brasileiro quando Joey Tribbiani foi atuar em uma em “Friends”.

Paralelamente a isso, com o crescimento da relevância econômica das chamadas “minorias” nos EUA, na década de 90 foi criado também um mercado cinematográfico específico para atender uma nova demanda que vinha mais especificamente das comunidades negra e latina do país. Isso inundou o mercado dos filmes lançados direto para vídeo de várias obras que não se importavam exatamente com a cor de pele ou país de origem de determinada comunidade, mas – ao contrário do cinemão, que só mostra esses grupos em situações em que sua raça ou origem é uma questão primordial – vinha somente para trazer representatividade ao colocar pessoas latinas e negras em situações e temáticas que sempre foram retratadas por gente branca tradicionalmente no cinema americano. Logo, tínhamos comédias românticas, dramas e filmes de suspense protagonizados por uma classe média negra e latina que vivia situações cotidianas, como tomar um pé na bunda, fazer uma entrevista de emprego, querer pegar fulana e por aí vai, sem qualquer ênfase em questões como pobreza, crime, miséria e tudo o mais que normalmente é usado por Hollywood ao retratá-los.

O que estes dois mercados do audiovisual têm (ou tinham) em comum é que, em comparação com os filmes lançados no Cinema, estas obras tinham baixo orçamento, temáticas batidas (mas populares), roteiros pobres, direção qualquer nota e atuações pavorosas. E, puta que me o pariu, essa verdadeira excrescência que é Encontro Fatal consegue juntar tudo que há de ruim nessas duas vertentes, entregando um suspense que não empolga, não traz tensão, não faz sentido e passa o mais ao largo possível de conseguir cumprir aquilo a que se propõe. De positivo, apenas a representatividade de um elenco quase que integralmente composto por negros vivendo uma situação que poderia estar sendo vivida (isso se você conseguir engolir o que aparece na tela) por uma pessoa com qualquer quantidade de melanina em sua pele.

A história é batida e, por isso mesmo, merecia um trato mais bem dado para justificar que fosse filmada. Elle Warren (Nia Long) é uma advogada de sucesso que está passando por um momento levemente conturbado em sua relação com o marido, o bonitão Marcus (Stephen Bishop). Por acaso (ou talvez não), Elle se reencontra com um antigo peguinha da faculdade, o feioso, mas que incrivelmente é colocado como galã aqui, David Hammond (Omar Epps). Eles acabam saindo depois do trabalho e se pegam fortemente no banheiro de uma boate que, convenientemente, estava vazio. Aqui sinto a necessidade de dizer que nunca entrei num banheiro de boate que estivesse vazio em toda a minha vida.

Acontece que David não é o gente boa que a gente imaginava, mostrando-se um psicopata obcecado por Elle, disposto a fazer tudo para conseguir viver esse grande e doentio amor.

O problema é que nada funciona. Nia Long e Omar Epps são atores de renome. Nia participou do seminal “Os Donos da Rua” e tem uma carreira sólida no cinema e TV americanos; Omar Epps é um dos atores mais reconhecidos de sua geração graças a papéis marcantes e populares em filmes e na série “House”. Ainda assim, prejudicados por um roteiro maluco e por uma direção frouxa, o desempenho dos dois aqui, assim como o de todo o resto do elenco, é muito abaixo da crítica. Epps especialmente dá vida a um David absolutamente insosso, sendo que o personagem é vendido como aquele psicopata clássico, sedutor e cruel.

De todo modo, eu diria que o roteiro aqui é o principal culpado. A título de exemplo, o psicopata David pega a menina Elle no banheiro um dia, toma-lhe um block no zap no dia seguinte e já no que parecem ser 3 dias depois aparece namorando a melhor amiga de Elle como se já estivessem juntos há séculos. Elle nem se espanta quando sua melhor amiga, que vinha reclamando que estava ficando pra titia, diz que vai apresentar o namorado que ela não tinha 3 dias antes e por quem está perdidamente apaixonada. E esse tipo de coisa é a tônica praticamente do filme todo. Uma forçação de barra de 90 minutos.

De bom mesmo, a única coisa que teve foi eu descobrir que o hit dos anos 90 de Will Smith “Men in Black” não é uma música totalmente original, mas praticamente uma versão de “Forget Me Nots” de Patrice Rushen (quem?!?!). Tirando isso, foi uma hora e meia da minha vida que não vou recuperar, extraindo dela a única satisfação de poder vir aqui contar isso para vocês e talvez poupá-los de sofrer o mesmo.

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