“Quando estamos apaixonados somos egoístas”. Talvez essa seja a assertiva que mais define essa curta série francesa de apenas 4 episódios. Em circunstâncias normais, se você fosse agraciado com um dispositivo para voltar no tempo, você serviria seus interesses próprios e imediatos. Agora, imagine o seguinte cenário: você acabou de terminar com uma pessoa cuja paixão foi avassaladora durante 9 meses de sua vida e que, logo após o término, essa pessoa morre. Se, por um incidente do acaso, um aparato que permitisse retornar 9 meses no tempo caísse no seu colo, o que você faria? Eis que Vincent (Gaspard Ulliel) coloca suas mãos em tal aparato e começa aqui a tentativa de evitar que Louise (Freya Mavor) o deixe e, posteriormente, que morra.

Se existe uma temática que eu amo dentro do cinema é a viagem no tempo (confira nosso Garimpo Netflix sobre o tema). Embora seja uma premissa batida, há quase sempre uma peculiaridade nas obras que a adotam. O curioso em Era uma Segunda Vez – e que me deixou com mais perguntas do que respostas – foi a inflexibilidade de como a volta no tempo ocorria, alguns paradoxos temporais e como isso se emaranhava com o roteiro. Sempre que Vincent voltava, “coincidentemente” no início da relação com Louise, cada minuto gasto no passado era um minuto que se passava no presente. Então se ele resolvesse passar um dia inteiro lá com sua amada, era um dia inteiro que ele perdia no presente. E, como a narrativa não é muito linear (claro, né?), no sentido de você muitas vezes não saber em que época está, propondo pro telespectador um certo desafio, a série nos prende de tal forma que pequenos detalhes percebidos nas falas trazem uma grande satisfação ao percebermos o que de fato está acontecendo. Além disso, nessa linha temporal do passado ficam algumas dúvidas. A versão dele daquela época some quando ele volta? Ele existe de fato naquela linha temporal? Ele realmente está voltando no tempo fisicamente ou é uma projeção mental? Muitas perguntas e poucas respostas, o que não atrapalhou nem um pouco a história.

Na sua paixão cega de tentar salvar seu relacionamento, Vincent exibe um enorme egoísmo a torto e a direito. Isso fica mais evidente em um dos melhores e mais lúcidos personagens infantis que me recordo, seu filho, que vive entre a casa de sua mãe e de seu pai. Mas não somente essa relação sagrada é posta em cheque, mas sua cegueira consome todas as partes de sua vida, afetando drasticamente seu trabalho e amigos. E é ao tentar salvar uma pessoa do seu passado, desmontando seu presente, que a série brilha e nos remete a uma bela alegoria das nossas atitudes perante nossos percalços, sempre presos ao passado sem prestar atenção ao que está acontecendo agora. Somado ao roteiro, tecnicamente, as atuações são consistentes, a fotografia com cores frias ajuda na narrativa e não há qualquer barriguinha. Resumindo, é uma obra redondinha.

Contudo, a série é curta, podendo ter facilmente o dobro de episódios, uma vez que é nítido que existe muito mais história a ser contada. Além disso, ela é interrompida drasticamente em seu final, num ápice que nos deixa na ponta dos pés para saber o que ocorrerá na próxima temporada.

Sugestões para você: