Michael Bay: esse é um nome cuja assinatura em uma obra cinematográfica já resume o que o espectador encontrará. Narrativas despretensiosas com personagens rasos e conflitos já batidos, mas com a singularidade de elevar a alguma expressão absurda o teor de ação que o filme pode trazer. Em suas produções, uma explosão não é um mero voo de estilhaços com uma chama alta a queimar seu alvo. Com Bay, um simples “cabeção de nego” é o prenúncio do apocalipse; é o fogo do inferno feito presente entre os viventes; é o malabarismo de destroços a criar uma valsa maluca em câmera lenta ao som de tiros e socos. Esquadrão 6, novo lançamento da Netflix, é mais um feito do diretor. E qual é o resultado? Bem, é Michael Bay.

One (ou “Um”, por Ryan Reynolds) é um bilionário sem história, sem família (que, aliás, rejeita este conceito que está sempre permeando quase todo filme americano) e sem o que fazer que não construir um grupo extraoficial regado de muitos recursos bélicos e tecnológicos para conseguir produzir algum tipo de bem à Humanidade. Neste caso, desde destruir impérios mafiosos a destronar tiranos em prol de uma democracia falsa propagada pela sua cultura norte-americana desde os primórdios da construção desta nação, One e sua “gangue” buscam a adrenalina de toda ação envolvida nestas missões, cujos resultados tenham algum valor. Composto por 6 pessoas, entre homens e mulheres, cada qual com uma especialidade, os personagens aceitam perder sua identidade, assumir uma nova, sem história, sem família e sem qualquer coisa, pela causa levantada por One. E, dessa forma, missão atrás de missão vão promovendo aquilo que consideram o melhor para a sociedade.

“The gang of super heavy”.

Há dois pontos específicos, e ambos já debatidos na introdução da presente resenha, que saltam aos olhos em Esquadrão 6: sua qualidade daquilo que é raso e o espetáculo visual. Um é inversamente proporcional ao outro, de modo que quanto mais ação e sequências colossais se tem, menos história e recheio se observa. Não estou a dizer, porém, que um filme do gênero necessite de algum tipo de profundidade. Longe de mim. Mas seria minimamente interessante saber as reais motivações dessas pessoas que aceitam, quase que de imediato, perderem inclusive seus nomes, história, relação com qualquer ente querido para lutarem por uma causa que surge do nada, de acordo com o que o bilionário One vai colocando à mesa. Um pouco mais de construção dos protagonistas (o que é de fundamental importância para se ter uma boa história, como repito aqui resenha atrás de resenha) é o mínimo para justificar 2h07min de nossas vidas reservadas à exibição de uma obra. Mas nos parece – como sempre – que essa não é, nem de longe, a motivação de Michael Bay. E aqui enveredemos pelo segundo ponto supracitado.

Claramente o objetivo de Bay, ao dirigir esse filme, é o espetáculo visual. A narrativa, a história, o roteiro em si são meras justificativas para que ele abuse dos recursos visuais no que tange a realização de um baile de explosões, tiros, lutas, pulos, corridas, fugas, em um impactante carnaval de cores. A fotografia é bonita pelo jogo de iluminação e cores (de figurinos à cenários), utilizando-se de grande saturação, trazendo quase um clima onírico à suas incansáveis sempre presentes sequências de ação. O comum recurso da câmera lenta aliada ao movimento em tempo real é feito de forma a tornar tudo tão mais grandiloquente. Cada detalhe aqui é demasiado. As locações, as perseguições, as inúmeras formas de execuções dos inimigos, os carros que capotam quase como em um número circense – e um detalhe em cada cena dessas, que aumenta ainda mais o impacto – unidos formam a única coisa que presta no filme: o desfile “Michael-Bayiano“. O cara é um carnavalesco do Cinema.

Segue o baile.

Para concluir o desastre, fora o elogio meramente visual, dois pontos do discurso do filme igualmente saltam aos olhos: o já mencionado sempre presente “somos uma família” e o igualmente incansável “somos os paladinos da democracia”. De mercenários que se unem, passando por uma tropa extraoficial pela causa justa, chegando até mesmo a uma trupe intergalática contando com humanos, alienígenas e até uma árvore falante, toda história americana parece se resumir a “somos uma família”. E aqui não é diferente. A aversão criada por One, logo no início do filme, será transformada pelo sentimento de união e formação de algo como uma família. Imagino que os núcleos familiares norte-americanos devam ser um tanto quanto degenerados, para que a propaganda hollywoodiana seja sempre tão marcante e imponente. Da outra parte, a velha máxima de que os Estados Unidos sabem o que é o melhor para cada povo, ainda que a cultura e os hábitos sejam completamente diferentes, colocando-os como dignos de invadirem um lugar qualquer (país este que os próprios personagens nem conseguem pronunciar direito) para alterarem por completo a organização política, econômica, cultural e social do local.

Se no século retrasado, Hergé criara os quadrinhos de Tintim para idealizar falsamente as investidas belgas no Congo, diante da percepção de sua sociedade européia, Hollywood não para de se utilizar do Cinema para provocar semelhante resultado em seu povo. Há sempre uma nova narrativa para exaltar o americano como o verdadeiro paladino da democracia. Sem esquecer que também são os paladinos da família.

Se eu fosse ele, formava uma família aí.

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