Damien (Vincent Elbaz) é uma espécie de Johnny Bravo francês, mas que, ao contrário de sua contraparte americana e em desenho animado, consegue comer gente. Chovinista e membro do grupo dos galãs feios, ele é daquele tipo realmente odioso de homem que gritaria “que bucetão!” para uma mulher que estivesse passeando pela rua e o faria realmente achando que aquilo seria um puta dum elogio. O pensamento desse tipo de cara (e é um raciocínio com o qual todo homem tem que lutar todo dia para não se tornar um cuzão) é o de que nós, homens, acharíamos ótimo se alguém nos gritasse “que pirocão!” enquanto estivéssemos indo à padaria.

E é justamente ao inverter esses papéis que o filme tem seu grande acerto. É ao cometer mais um desses atos de babaca ao assobiar para duas meninas com metade de sua idade que Damien sofre um acidente e bate a cabeça. Ele acorda, então, em outro universo. Um no qual – ele descobrirá depois de muitas situações que se alternam entre forçadas e perfeitamente pertinentes – quem manda na porra toda são as mulheres e onde ele descobre que ser alvo (ou objeto) de cantadas baratas é apenas a ponta do iceberg de merda que é (ou deve ser) ser mulher numa sociedade machista, misógina e objetificadora da figura feminina.

Este mundo é idêntico ao nosso, mas nele as mulheres são fisicamente mais fortes que os homens, detém os cargos de chefia E os trabalhos comumente associados a homens (açougueiro, motorista, pintor de paredes…), pagam drinques e refeições, peidam e arrotam, além de diminuírem os homens em basicamente tudo que eles fazem. Em suma, afora alguns exageros de roteiro no que se refere a relação entre os sexos neste novo mundo – que faz com que pareça que Damien tenha na verdade ido para uma versão do nosso mundo com os preceitos morais de 1950, ao, por exemplo, não conseguir respirar sem ser cantado ou escrotizado por ser homem -, estamos aqui no nosso mundo, mas os gêneros estão trocados.

Pegando um pouco emprestado de grandes “crássicos” do cinema como “Se eu Fosse Você”, “Se Eu Fosse Você 2” ou as mil variações gringas da comédia em que um homem troca de lugar com uma mulher para então os dois terem uma grande lição ao final, Eu Não Sou um Homem Fácil se vale vagamente deste conceito do troca-troca para apresentar uma visão da máxima de que o oprimido não quer deixar de ser oprimido, mas, sim, oprimir. Nesse sentido, este que é o primeiro longa original Netflix produzido na França, parece se inspirar em um dos filmes mais polêmicos e subestimados da década de 90, “A Cor da Fúria“, filme estrelado por John Travolta no qual a elite dominante do mundo é negra e não a elite branca de hoje e sempre, demonstrando que a cor da pele (e, aqui, o gênero) não é nada determinante no que tange a necessidade humana de se cerrar em comunidades e subjugar aqueles que não fazem parte dela.

Isso, na França, é considerado um galã.

Apesar de se valer de um expediente meio lugar-comum ao fazer o malandrílson bater a cabeça e acordar em outro universo, os clichês que mais incomodam são mesmo aqueles do “Se Eu Fosse Você”. A relação que Damien passa a construir com Alexandra (Marie-Sophie Ferdane) – assistente de um escritor amigo dele no universo original e escritora devoradora de homens (tal qual Damien é de mulheres) no outro – não se sustenta, é lotada de elementos maniqueístas e que simplesmente não fazem sentido dentro do contexto do filme, fazendo com que ele não funcione muito bem enquanto comédia romântica.

Felizmente, a má-construção deste elemento tão forte e importante dentro de um filme do gênero não eclipsa o caráter relevante e até mesmo libertador de uma história que fará com que todo homem com um mínimo de empatia para com o próximo coloque a mão na consciência e entenda que talvez não seja assim tão legal elogiar o tamanho da buceta de uma mulher passeando por ai com uma calça mais apertada. E, caso você não consiga ter a empatia necessária, tenha certeza de que não, não é nada legal. Sério mesmo. Para com essa porra. Na moral.

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