Patinadoras são princesinhas do gelo. Leves, elegantes, delicadas, elas são um grupinho de Audreys Hepburns usando figurinos de gosto duvidoso e realizando movimentos improváveis com uma cara de quem está comendo algodão doce. Patinadoras no gelo são assim. Menos Tonya Harding.

Nascida na parte mais pobre do Oregon, criada por uma mãe para quem disfuncional seria um elogio e um eufemismo, imersa em um relacionamento abusivo com o marido, Tonya nunca foi uma dama. Mas o seu talento no rinque de patinação deixou os Estados Unidos de boca aberta no inicio dos anos 90. Primeira mulher a realizar o Triple Axel (movimento super ultra hard de três voltas e meia no ar. Nota: apenas duas outras patinadoras depois dela realizaram esse negócio aí, a ultima aliás dois dias atrás nas Olimpíadas de Inverno), sua história, no entanto, é lembrada pelo “incidente” de 1994: por atuação direta do marido de Harding e até hoje numa nebulosa dúvida se com a sua aquiescência, Nancy Kerrigan, a princesinha da patinação do gelo americana, teve suas pernas espancadas e quase quebradas.

Eu, Tonya conta a história da moça dos quatro anos de idade até os momentos pós-“incidente”. Por uma série de escolhas inteligentes, o que poderia resvalar em um filme de tom documental sério ou, pior ainda, numa heroicização de atos nem um pouco nobres, ela se torna uma das produções mais divertidas do ano.

A primeira dessas escolhas foi o tom. O maravilhoso roteiro de Steven Rogers e a direção preciosa de Craig Gillespie decidiram desenvolver a narrativa no tom de humor negro. Essa escolha impediu de cara que ele esbarrasse nos dois perigos citados, coisa comum em cinebiografias. Assim, a produção soa ousada, divertida, testando limites, desafiadora. Mas, ao mesmo tempo, não se furta a discutir assuntos pesados – como fama, abuso e solidão – de uma forma madura.

A segunda grande tacada está no elenco. Margot Robbie como protagonista entrega o papel da sua vida. Desglamourizada, jogada totalmente na protagonista, o que vemos ali é uma atriz dominando completamente uma personagem. Com certeza uma das melhores atuações do ano, coroada, com justiça, por uma indicação ao Oscar. A única peça do elenco capaz de roubar algumas cenas dela é a maravilhosa Allison Janney como LaVona Golden, a mãe despirocada e abusiva. Considerada por todas as bolsas de apostas como a dona do Oscar de atriz coadjuvante este ano, Janney entra para a galeria das atrizes que criam um personagem icônico, desses que a gente coloca frases em camisetas. Sua LaVona é de uma crueldade tão crua que se torna hilária. E faz o espectador lembrar do porquê dos nossos analistas nos fazerem ficar tantas horas falando das nossas mamães queridas. Todo o elenco restante funciona organicamente na história, com um destaque especial para Paul Walter Hauser como Shawn, o imbecil e trapalhão segurança de Tonya e cúmplice do “incidente”.

Por fim, é preciso falar da mais que excelente edição do longa. O que Tatiana S. Riegel produz aqui não é montagem, é uma obra-prima, uma master class. Embora o favorito ao prêmio da Academia seja a edição extremamente competente de “Dunkirk”, ouso dizer que, nesse quesito, Eu, Tonya é superior. Ritmo, força, narratividade, ousadia, humor, tudo isso é providenciado pela edição primorosa.

Eu, Tonya é um acerto cinematográfico. É um triple axel e, se me permitem mesclar os esportes, ainda faz um duplo twist carpado com Brasileirinho no final.

 

Sugestões para você: