Documentários constituem um dos gêneros mais provocativos do cinema. Plantados no “real”, eles exibem o esqueleto do ofício cinematográfico e revelam que, mesmo com os pés no factual, o coração da arte é sempre subjetivo. Cabe ao documentarista, então, a difícil missão de transformar em narrativa imagética o equilíbrio delicado entre a crueza dos documentos e a reflexão e arte do seu próprio olhar. Documentários desafiam.

Excelentíssimos, de Douglas Duarte, é uma dessas produções que, tal como os filmes de Michael Moore ou o excelente “Eu Não Sou Seu Negro“, de Raoul Peck, não se furta a deixar claro logo de cara o peso e a leitura de seu realizador acerca do fato exibido. No caso do longa brasileiro, Duarte se debruça sobre todo o processo que, começando nas eleições de 2014, irá culminar no impeachment da presidenta Dilma Roussef. O filme assume a posição de que tudo se tratou de um golpe orquestrado pela oposição, pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e por algumas bancadas temáticas. Para tanto, Excelentíssimos vai se valer de um farto (e põe farto nisso) material que mostra, no calor dos acontecimentos, dentro da Câmara, no Senado e nas ruas, as articulações que, no fim, levaram a queda da governante.

Cinematograficamente, a opulência do material se revelou uma faca de dois gumes para a produção: ao mesmo tempo em que referendou a competência da pesquisa e o comprometimento factual da narrativa, ele também colaborou para que as deficiências do filme ficassem mais patentes. Assim, negativamente, dois pontos apareceram de forma muito forte.

O primeiro deles é comum a produções do gênero: a quase onipresente narração em off. Se, por um lado, ela se faz necessária para manter coerência e esclarecer as imagens mostradas, em alguns momentos ele se revela maçante. Uma sequência, por exemplo, sofreu muito com isso. Nela eram mostradas as reproduções dos famosos e nada reveladores áudios liberados à imprensa pelo agora futuro ministro da Justiça, na época Juiz Federal, Sérgio Moro, que grampeavam os telefones da presidenta e do ex-presidente Lula. A tela assume o formato de uma folha em banco, sendo preenchida pelas conversas, enquanto ao fundo ouvem-se os áudios. Somados a uma narração que não apresenta muitas modulações na voz, o resultado é bem enfadonho.

A segunda fragilidade do filme é a sua duração. Apesar do excelente trabalho da edição, que dá aos fatos políticos um clima de filme de suspense, não passa despercebido ao espectador que ele dura mais de duas horas e meia. Principalmente quando se compara a agilidade e o ritmo extremamente bem lapidados do terço final em relação aos dois terços anteriores.

Por outro lado, a seriedade com a qual as imagens são tratadas também produz os pontos mais fortes de Excelentíssimos. Começando pela divisão do roteiro em capítulos que vão, quase didaticamente, esmiuçar o impeachment como um projeto arquitetado e articulado por raposas políticas, desvelar as fragilidades jurídicas que sustentavam a acusação, além de exibir uma robusta visão crítica dos desdobramentos do processo, que vão desde a implicação de Eduardo Cunha e vários ministros do governo Temer em escândalos de corrupção e que se estendem até aos caminhos das eleições presidenciais deste ano, que acabaram elegendo a controversa figura de Jair Bolsonaro.

Aliás, o presidente eleito aparece em três momentos bastante representativos de sua persona política. Em um discurso diz que defende que cada família brasileira tenha uma arma em casa e, em um segundo momento, ao ser lançado como pré-candidato à presidência, acusa o ativismo negro, feminino e LGBTQI+ de promoverem o coitadismo, prometendo acabar com isso em um futuro governo. Sua terceira participação é o famoso voto na sessão do impeachment, no qual ele parabeniza Eduardo Cunha e dedica seu voto a Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel e torturador no período da Ditadura e, nas palavras de Bolsonaro, “o terror de Dilma Roussef”.

Se na maior parte do tempo a engenhosa edição cria ares de thriller, em certos momentos a política brasileira oscila entre a comédia bufa e os filmes de terror. É um exercício de vergonha alheia assistir à colocada de centenas de patos de borracha nos jardins do Planalto pela FIESP, um festival nonsense se deparar com um culto da bancada evangélica dentro da Câmara, no qual um pastor com sérios problemas gramaticais conduz uma pregação e uma exibição de truques de mágica com cordas (!) e beira às raias do assustador uma reunião da Bancada da Bala, na qual alguns de seus membros desafiam um diretor de um grupo ligado a lutas pela reforma agrária a invadir suas casas e ser recebido a tiros. Culminando, claro, nas “pérolas” que foram as justificativas de certos congressistas durante a votação do impeachment.

Excelentíssimos ainda não é o filme definitivo sobre a nossa história recente. Talvez nosso cinema ainda precise de mais um pouco de afastamento temporal para produzi-lo. Mas é, sem dúvida, um competente trabalho crítico que deixa no espectador o desejo de, ao conhecer alguns membros de nossa classe política, complementar seu título com um sonoro palavrão.

Sugestões para você: