Há tempos que em diversos textos eu coloco minha opinião acerca de filmes que se baseiam em diálogo e não parecem uma peça de teatro filmada. Talvez os dois mais significativos, nesse modelo, sejam “Uma Simples Formalidade”, o brilhante filme do incrível diretor italiano Giuseppe Tornatore, e “Antes do Amanhecer” (em toda sua trilogia) de Richard Linklater. Em ambos (e estes não seriam os únicos exemplos, é claro), toda a tensão da narrativa fica por conta de um duelo de diálogos muito bem escritos, com tamanha profundidade, tocando em pontos que são extremamente interessantes não só aos personagens, mas, sobretudo, ao espectador. A nova produção turca lançada na Netflix, Expresso do Destino, parece ter clara inspiração em “Antes do Amanhecer” ao nos colocar durante todo o tempo no centro da conversa de um casal de desconhecidos, em uma viagem de trem.

Ali (Metin Akdülger) e Leyla (Dilan Çiçek Deniz), por um acaso, estão na mesma cabine de um trem, a realizar longa viagem dentro da Turquia. A princípio interessado na companhia da jovem pouco convidativa e nada simpática, Ali a defende diante do fiscal do transporte, já que homens e mulheres não casados não podem viajar juntos no trem. A partir dali, ele se vê com crédito para tentar descobrir, durante as longas horas daquela noite até o amanhecer, quem é a pessoa a viajar com ele. Só que Leyla é uma mulher cheia de atitude e que não abre brechas para Ali, que vai se desnudando de seus traumas emocionais para ver se consegue quebrar o gelo artificial imposto por ela. Então, eles vão descobrindo que têm muito em comum. Até mesmo o destino daquela viagem.

O abismo entre eles.

O filme é um romance com tons de drama e toques de comédia para suavizar alguns pontos da trama. Juntos com eles, enquanto o trem segue seu caminho, vamos acompanhando suas experiências passadas acerca do amor: ambos machucados por seus antigos pares, ambos tendo sacrificado partes de suas vidas, mas tentando seguir em frente, sem nunca conseguir deixar para trás o que se passou. Presos àquele passado, são meras figuras em inércia dentro do trem a andar a todo vapor, representando a vida que passa e não dá tempo para que qualquer um se acomode diante do que se relaciona. O trem é, muito provavelmente, a ilustração mais profunda de toda a narrativa, ao trazer em si, em alguns momentos, uma reprodução dos sentimentos daqueles personagens.

O outro fator que poderia ajudar no aprofundamento das crises dos protagonistas e da narrativa como um todo seriam os diálogos. Se, por um lado, o trem funciona lindamente como a ilustração da vida, as conversas não favorecem tanto. Seja pelo teor do que é debatido, seja pela forma com que se é debatido. As discussões que eles têm, os conflitos que um provoca ao outro, não chegam a abraçar com braços quentes e envolver delicadamente o espectador. Tampouco violentamente, quando a situação tende mais ao drama. A construção dos diálogos, portanto, fica em um limiar entre o trivial e o que poderia ser, de fato, profundo a ponto de promover uma reflexão a cada cena naquele que assiste. E se o filme é todo baseado no diálogo, temos um problema que surge bem claro aí.

Seguindo em frente.

Ao concluir a jornada, junto aos seus protagonistas, a sensação que fica é a de que algo faltou. Podendo ser muito mais preenchido em simbologias e ilustrações, não restando nada além do trem, e muito mais significativo em seus diálogos, Expresso do Destino passa por nós, como se estivéssemos a acompanhar a paisagem que vai mudando ao longo da viagem. Como se fôssemos um outro grupo a andar com eles na cabine ao lado. A viagem passou, chegamos ao destino, descemos e nos encaminhamos para uma outra e próxima aventura.

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