O pessoal é político. O pessoal é político. O pessoal é político.

Tal qual um mantra, a frase popularizada por Carol Hanisch, ativista feminista radical da década de 70, ecoa durante os 86 minutos do documentário Feministas – O Que Elas Estavam Pensando. Seu sentido é direto, mas, ainda assim, complexo, e faz cair por terra contrapontos rasos que ridicularizam (“é mimimi”) experiências individuais dentro da vivência de gênero das mulheres. O argumento se valida pois quando nos aproximamos dessas falas, como que colocando uma lupa nas palavras de mulheres, encontramos denominadores comuns. Opressões não são meras coincidências – são estruturas. O pessoal é político.

Johanna Demetrakas brilhantemente conduz um apanhado histórico que contempla com vigor a segunda onda feminista como um todo; desde mulheres no campo das Artes (teatro, pintura, fotografia) até, como esperado, nas ruas. Para isso, ela inicia a narrativa a partir do magistral livro de Cynthia McAdams, “Emergence”, no qual há capturas de mulheres, anônimas e conhecidas, no ápice do movimento nos anos 70.

Cynthia McAdams nos anos 70 <3

O documentário procura algumas daquelas mulheres fotografadas para que contem suas histórias com o olhar de agora. Senhoras de 60 e poucos anos são postas em tela e tudo que eu penso é: quero ser assim. Não por suas profissões, que são distintas – algumas artistas, outras cantoras, professoras e por aí vai -, mas pela força que as construiu e as permitiu romper com as expectativas do “ser mulher” nos anos 60/70. Um sentimento genuíno de agradecimento por tantas mulheres que ousaram, e ainda ousam, toma conta de mim enquanto assisto à obra de Demetrakas.

Fora o apelo emocional, que confesso que não faço esforço para esconder, os aspectos técnicos se mostram sólidos e a direção é não somente artística como cirúrgica. Enquanto historiadora, ainda mais tratando-se de uma área de minha ênfase, fiquei bastante satisfeita com a forma que o roteiro escolhe apresentar e discorrer sobre o feminismo. Poderia ser um enfoque tão somente no movimento da época, mas não é.

A atriz Jane Fonda, também conhecida por seu ativismo e posicionamento político, é uma das entrevistadas no documentário. E eu me RECUSO a acreditar que ela tem 80 anos.

O documentário tem sucesso na medida em que começa devagar, com um esclarecimento sobre feminismo (bem be-a-bá), e daí escolhe por escalonar até recortes de raça, validando a interseccionalidade do movimento, passando por questionamentos radicais da “essência feminina” e tantos outros assuntos que poderiam facilmente ser abordados de maneira incompleta. Mas não são – e agradeço profundamente por isso. De maneira acessível, mas sem abrir mão de algumas sofisticações do estudo de gênero, o documentário é um prato cheio tanto para recém-chegadas ao rolê feminista quanto para apreciadoras de leituras acadêmicas.

Por fim, fico feliz em ver produções que explorem o tema e suas capilaridades. Afinal, partir da Arte para falar de História é algo que ainda recebe olhares desconfiados – ainda mais nessa verdadeira metalinguagem, na qual o Cinema fala da fotografia que fala do feminismo. Assuntos que, no geral, lutam por serem levados a sério e carecem de investimento substancial e reconhecimento. Feministas: O Que Elas Estavam Pensando? se mostra atual ao apresentar que o que está em pauta hoje origina do movimento que rolou nos anos 70. Vozes femininas que deram gritos em forma de livros, entrevistas, greves, marchas, peças e fotografias ainda influenciam e norteiam nossa vidas – e ainda bem que o fazem.

Yes, I am. We are!

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