Centro do mundo, velho mundo, nascedouro das artes, lugar de filósofos e berço da civilização ocidental. Essas são algumas das alcunhas da Europa, sempre ressaltando sua importância cultural para o resto do mundo que, convenhamos, se dá muito mais pelo fato de que explorar, arregaçar e estuprar o mundo todo não poderia ter tido outro resultado que não o de colocar a Europa e os europeus como o povo mais bem educado e erudito de todo o globo. Mas aí vão e me inventam o Eurovision, mostrando que o europeu médio é tão retardado quanto o brasileiro médio que assiste ao The Voice Brasil e diz que fulaninha é especial e canta demais somente para esquecer completamente da pessoa 2 minutos depois quando aparece um outro que também merece os mesmo adjetivos, sendo que quando chega mais ou menos a hora do Faustão o espectador só quer mesmo saber da videocassetada e nem lembra mais daquela loirinha ou daquele moreninho que canta muito.

O Eurovision é uma coisa brega e cafona demais, mas, como costuma acontecer com coisas desse estilo, é também extremamente popular na Europa continental. Basicamente, cada país europeu faz uma classificatória e indica um artista e canção para competir na final. E aí tem aquela patacoada toda de programa de jurados com voto popular, voto de especialistas, voto de cada país e por aí vai. E é aqui que entra o exagero e o absurdo. Como esses votos são dados após uma performance transmitida para toda a Europa de tal artista, o pessoal se esforça na pirotecnia, nos falsetes e nas notas longas, sem grandes interesses na música enquanto arte, mas, sim, na música enquanto espetáculo, o que em geral não dura, tanto que a maioria dos vencedores e participantes desse festival, tal qual ocorre no The Voice, simplesmente some do mapa e não se sabe mais deles (com exceções notáveis como o Abba, Céline Dion e Thiaguinho).

O filme (cujo nome não repetirei porque é longo para um caralho) segue a obsessão do islandês Lars Erickssong (Will Ferrell) em ganhar esse festival desde que assistiu o Abba vencendo na década de 70, fazendo dele o único homem heterossexual da história que teve sua vida transformada pelo Abba. Para tanto, ele funda com sua amiga Ygritte (Rachel McAdams) a banda Fire Saga na idílica, real e minúscula (com 2.300 habitantes) cidadezinha de Husávik na Islândia. Seu sonho não é fazer arte, não é ganhar dinheiro, não é a fama, não é porra nenhuma. Ele só quer ganhar o Eurovision e mais nada, o que cai muito bem em mais um da série de personagens imbecis e/ou ególatras da carreira do Will Ferrell, sendo este aqui mais um sujeito de meia idade fracassado que vai encontrar sua redenção de uma forma ou de outra.

E por falar em Will Ferrell, é preciso ser dito logo que, ainda que haja essa roupagem europeia na temática do filme, esse é um clássico filme de Will Ferrell. Isso quer dizer que temos um protagonista de bom coração que, a despeito de ser um sujeito de uma burrice comovente e um ego do tamanho do mundo, vai aos trancos e barrancos superando os obstáculos que aparecem em sua frente para, no fim, ter uma grande e linda lição de moral. Isso tudo acontece aqui exatamente como manda o manual, deixando o espectador com aquela sensação de já saber precisamente o que vai acontecer até o final do filme depois que descobrimos, por exemplo, que Ygritte nutre uma paixão por Lars desde sempre.

Enfim, o Fire Saga, por uma jogada absurda do destino, ganha a qualificatória islandesa vencendo a fantástica Katiana (interpretada pela diva pop Demi Lovato) e vai para a finalíssima em Edimburgo na Escócia, onde eles então conhecerão artistas da Europa toda, em especial o russo gay (um paradoxo já que não há homossexuais na Rússia, não é mesmo) Alexander Lemtov (Dan Stevens).

Temos aqui então uma comédia daquelas bem patetas típicas do Will Ferrell com alguns momentos e piadas realmente boas, mas que na maior parte do tempo é lamentável ou traz apenas um risinho frouxo. Isso, é claro, pode ser perdoado pra quem quer só ver uma coisa boba pra passar o tempo, mas, puta que o pariu, é tempo demais! São duas horas de um filme que mal tem conteúdo para rechear uma hora e meia e ainda gasta seu tempo com vários números musicais, sendo que um deles, um tal de um song-along, é, sem sombra de dúvida, das coisas mais constrangedoras de que se tem notícia na história recente do Cinema. Sem sacanagem. Deu aquela vergonha alheia que te faz querer trocar de canal, saca?

Ok, admito, o número final do Fire Saga no Eurovision me fez chorar feito um bebezinho, mas credito isso muito mais a minha fragilidade emocional de quem mora sozinho durante uma pandemia do que a uma efetiva qualidade do que é mostrado, muito embora a canção apresentada seja realmente bonita e emocionante.

Festival Eurovision da Canção: A Saga de Sigrit e Lars (eta nome grande da porra) é uma comédia boba, com muito mais baixos do que altos, mas que talvez sacie sua vontade de só ver uma coisinha besta e bem produzida na TV enquanto olha o celular e talvez tente convencer alguém a praticar o coito. São imagens lindas da Islândia entremeadas com muita música e piadinhas infames típicas de qualquer coisa do Will Ferrell. E isso talvez seja suficiente para você como conseguiu ser pra mim, ainda que por muito pouco, e apesar do longa ser quase tão longo quanto seu título.

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