Man’s got his woman to take his seed
He’s got the power – oh
She’s got the need
She spends her life through pleasing up her man
[…]
She cries alone at night too often
He smokes and drinks and don’t come home at all
Only women bleed
Only women bleed
Only women bleed
(Alice Cooper, 1985)

Diz o velho ditado que “o que os olhos não vêem, o coração não sente”, talvez por essa razão não podemos ter ideia alguma do que significa viver sob constante ameaça da violência de uma guerra civil como a que ocorre na Síria desde 2011, para a qual boa parte do cidadão comum dessa nossa pequena bolha chamada Brasil se acha alienado. Estima-se que o conflito ocasionado pela resistência ao poder de Bashar al-Assad já dizimou cerca de meio milhão de pessoas, além de ocasionar fugas em massa de refugiados, provocando uma crise internacional. Eis o pano de fundo de Filhas do Sol, mais novo longa dirigido por Eva Husson.

Adianto, para que não se tenha dúvidas, que esta análise é extremamente parcial, uma vez que esse filme me tocou profundamente. A narrativa nos faz acompanhar a força feminina das Unidades de Proteção Popular (YPG), milícia que defende as áreas habitadas por curdos no norte da Síria. Em julho de 2012, as YPGs assumiram o controle das cidades de Kobanî, Amuda e Afrin, tendo o Comitê Supremo Curdo estabelecido um conselho de liderança associada para administrar as cidades, lutando contra a opressão das forças do governo e do radicalismo ideológico e religioso do Estado Islâmico. A atuação dos curdos marca uma nova era na luta por representatividade de gênero num território marcado pela violência do patriarcado: por lei, toda instituição governamental nas áreas da Síria controladas pelos curdos tem um presidente ou diretor de cada sexo, e a maioria dos conselhos e comitês públicos têm números iguais de homens e mulheres. As milícias curdas têm Unidades de Proteção à Mulher, ou YPJ, em uma parceria importante com os grupos masculinos no campo de batalha. Quando as Forças Democráticas Sírias, coalizão com apoio norte-americano, capturaram Raqqa do Estado Islâmico, em 2018, o comando geral da operação foi de uma mulher, Rojda Felat.

Nesse sentido, o longa nos reporta para a realidade acima descrita, criando uma imersividade proveniente de um olhar sensível. Acompanhamos a fotógrafa e jornalista francesa Mathilde (Emmanuelle Bercot), que, ao ficar presa na Síria por conta da perda de seu contato de transporte, resolve se juntar ao núcleo militar comandado por Bahar (Golshifteh Farahani). A partir daí, Mathilde se vê imersa na tensão diária que a rotina da guerra impõe sobretudo às mulheres, vítimas sofridas dos extremistas islâmicos, cuja política misógina gera dezenas de escravas sexuais e alimenta o tráfico de mulheres e meninas em todo o território sírio e libanês. Na trama, Bahar, assim como várias outras mulheres do grupo, é uma dessas vítimas, tendo sua casa invadida e sendo levada para cárcere privado em poder dos invasores. Ao conseguir fugir, ela entra para a milícia armada, juntando-se à resistência.

Funcionando com flashbacks, conhecemos o passado de algumas personagens, sobretudo Bahar e Mathilde, o que constrói um sentimento de admiração pela capacidade dessas mulheres de se reestruturarem mesmo depois do que passaram. Aliás, o tema central do filme é justamente a resiliência feminina, personificada na força de vontade de Bahar e na coragem das mulheres no front. Cenas de confronto armado funcionam como o elemento de tensão, deixando-nos ansiosos sobre o futuro de cada personagem.

O roteiro desse filme realmente é brilhante e nos brinda com diálogos fortes mas também usa o silêncio em vários pontos pra construir um drama que leva qualquer um às lágrimas. Os elementos apresentados ao longo da história equilibram o tema da crítica social e do companheirismo dessas mulheres. A fotografia também contribui fortemente para a sensação de realismo que se experimenta.

O arquétipo das mulheres guerreiras – “Mulheres que correm com os lobos” – não deixava de me assaltar enquanto assistia ao filme. Porque Filhas do Sol é, antes de mais nada, sobre o que é mais urgente no instinto humano: a sobrevivência. Ser capaz de superar todos os momentos sombrios e o desespero em prol da esperança de sobreviver ao futuro. Por tudo isso, recomendo Filhas do Sol a qualquer espectador interessado na temática mas faço um parêntesis aqui para as mulheres, pra quem essa película se torna especialmente obrigatória.

Sugestões para você: