Imagine que você está cuidando de sua vida em uma tribo numa pequena ilha remota do tamanho de um quarteirão no oceano Pacífico. Você cuida dos seus afazeres pessoais, honra as tradições religiosas, contribui para a sociedade e respeita a sabedoria dos mais velhos enquanto educa os mais novos. Seu mundo é, literalmente, a sua ilha e qualquer coisa que passe boiando relativamente perto. Não há espaço para surpresas, o senso de comunidade é fortíssimo, todos se conhecem e qualquer evento que afete o espaço físico da ilha tem profundos desdobramentos em sua vida. Aliás, para vocês da tribo, os seres humanos se limitam apenas a essa ilha e o mundo acaba onde a vista alcança.

Agora imagine que em mais um rotineiro dia, surge no horizonte um navio de metal com centenas de outros seres humanos, fortemente armados, que começam a abrir fogo sem qualquer motivo aparente em você e seu povo. Quão brutal é esse choque de realidade? Quem são esses seres? De onde vieram? Quão grande é o mundo? Qual o nosso lugar nele?

Filhos das Baleias pega essa premissa e adiciona uma discussão sobre nosso comportamento perante a dualidade razão versus emoção. Nesse anime distribuído pela NETFLIX, seguimos a vida de Chakuro, um “registrador” de acontecimentos na ilha Baleia de Lama, onde vive com outras 500 pessoas. Através de suas palavras aprendemos que a sociedade nessa ilha harmoniosa é dividida em 2 “castas”, se é que podemos falar assim. Temos os detentores da timia, uma espécie de poder mágico que controla objetos, que vivem vidas curtas entre 20 e 30 anos e compõem 90% da população e aqueles que não possuem tais poderes e vivem vidas plenas. Esses humanos sem poderes, ao chegarem na casa dos 60 anos, são convidados a participar do conselho da ilha e passam a determinar o rumo dela.

A Baleia de Lama (nome da ilha) está a deriva em um mar de areia e seu isolamento do mundo é subitamente interrompido com a aproximação de uma enorme ilha esculpida a imagem de uma embarcação militar. O contato desastroso e a luta pela sobrevivência da nossa paradisíaca ilha tomam parte de praticamente toda a temporada, em um calmo e muito bem desenvolvido ritmo. Há aqui um enorme cuidado em caracterizar essas civilizações contrastantes e ligá-las em um “lore” profundo e complexo (e MUITO místico).

Esse talvez seja a único ponto no qual faço uma ressalva ao anime. Seu lore é tão profundo que o número de episódios, dado o ritmo da obra, deixou diversos personagens e acontecimentos – que nitidamente possuem raízes no seu mangá – sem explicação. Caso o anime tivesse perto de 20 episódios (como costumam ter alguns com muita história para contar) e esse background fosse trabalhado, a experiência de assisti-lo poderia ter sido aprofundada significativamente

O que mais agrada ao vermos a obra é, sem sombra de dúvida, como a emoção interfere em nossas ações. Na Baleia de Lama, apesar de não serem incentivados por motivos escusos, os habitantes expressam emoções e vivem em perfeita harmonia com o ambiente, mas com pouca alteração do seu meio, já que a tecnologia da ilha é muito arcaica, valendo-se mais dos poderes dos detentores da timia. Já nossos agressores abandonaram as emoções e atingiram um alto grau de desenvolvimento tecnológico e de capacidade de alteração do meio. O embate entre essas duas formas de encarar o mundo e o discurso por trás do abandono das emoções para atingir um objetivo faz a série se mover e comover.

Vemos esse belo contraste refletido na arte que contém elementos de hachura e muita atenção aos detalhes. A coloração com tons vibrantes e com aspecto aquarelado e pincelado indo de encontro ao genocídio do povo da ilha – contemplando ainda cenas de infanticídio, impalamentos e execuções – cria uma atmosfera que representa o que os habitantes da Baleia de Lama sentem: um sonho virando pesadelo.

Com uma bela 1a temporada, roteiro bem amarradinho, bela direção de arte e um enrendo interessante, Filhos das Baleias é uma agradável surpresa no catálogo de animes, já respeitável, da NETFLIX.

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