Sou professora de crianças e adolescentes e, coerente com minha escolha de profissão (e muito satisfeita também), adoro ter contato com eles. Na verdade sempre gostei de crianças e temi adolescentes, até o momento que me dei conta que, aos olhos deles, eu me aproximo muito mais a uma irmã mais velha maneira do que uma professora e toda a carga hierárquica que isso traz. É claro que é preciso cuidado nessas horas pra não virar bagunça, mas no geral uso isso a meu favor e tudo sai bem. De qualquer forma, volto ao meu ponto, que era dizer que, por realmente curtir o contato com criaturinhas não-adultas, sempre tive muita vontade de ser mãe.

E adentremos agora num dos maiores paradoxos da minha vida, atrás tão somente dos constantes questionamentos feministas que me explodem de tempos em tempos: adoraria ser mãe mas, proporcionalmente, tal pensamento me traz absoluto terror, desespero e medo. Nada pela parte física, ou que englobe com quem quero ter, ou a parte de “ah vai estragar minha carreira”. Mas por ter PAVOR de foder emocionalmente com um ser que eu, por escolha, sem pedidos nem nada, coloquei no mundo. A ideia de colocar alguém num mundo tão maluco já me parece densa o suficiente. Por cima disso ainda estar ali talhando defeitos, traumas, limitações… tudo isso me consome. E é a partir dessa visão super positiva e alto astral que venho falar de Filhos do Caos, uma série que é salpicada por elementos meio futuristas a la “Black Mirror” para denunciar danos parentais na vida de suas crias.

Dividida em 5 episódios de enormes 1:40 (praticamente um filme por episódio), a narrativa foca sempre na vida de um(a) adolescente com uma relação familiar tóxica. Um dos elementos em comum dos episódios é a super-preocupação dos pais, muito em função cultura de honrar a família taiwanesa, com o quão bem sucedido seus filhos serão academicamente. Se aqui no Brasil já temos uma bela encheção de saco para os pirralhos passarem com louvor no vestibular, alimentando uma cultura meritocrata babaca, lá a coisa é num nível ainda mais doentio. Castigos físicos, chantagens, tortura psicológica e muito jogo em cima da cabeça de crianças para que passem nos exames, sejam os melhores alunos, entrem nas melhores faculdades – e não deem um pio contradizendo nada disso.

A partir dessa tônica de denúncia, para tornar as histórias mais palatáveis há uma inserção meio distópica ou tão somente de sci-fi, como por exemplo controladores de pessoas ou universos paralelos, e isso é uma boa investida da série. No entanto, além dos demasiadamente longos episódios, outro ponto negativo é o fato de abusarem do recurso dramático, com as conhecidas gritarias em mandarim e músicas de fundo nacionais melódicas apelando em cenas claramente engatilhadoras – mas que não funcionam por eu achar patético. Eu acho que é meio que característica do cinema asiático (ainda que existam muitos que fujam disso) e eu, Larissa, só não sei lidar mesmo e sou tomada por uma vergonha alheia que desvia meu interesse do que está por trás daquilo.

No mais, uma vez disposto a assistir os episódios-filmes (isso foi realmente uma coisa que me incomodou), a série carrega uma crítica social interessante e que, mesmo que venha do outro lado do mundo, torna-se válida para nosso cenário educacional. Apesar de termos como influência estudiosos fantásticos e essenciais na pedagogia moderna, como Piaget e Paulo Freire, a educação como um todo tende ainda a priorizar uma “produção fordista”, em que o professor abre a cabeça do aluno, enfia um conteúdo e grita “próximo!”. E, quando tal aluno não “funciona”, a culpa não é do sistema e sim do próprio aluno; e ele é visto como inferior socialmente e etc etc.

Nesse sentido, Filhos do Caos decola com estabilidade e é consistente. Derrapa cá e lá, mas nada que não possa ser visto com olhos bondosos. E serve de combustível para meu paradoxo maternal, já que mostra pais e mães em uma bolha na qual seus comportamentos estrondosos, para mim, são vistos com naturalidade e até mesmo como o padrão. Acho que vou continuar tendo gatos…

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