Que elementos uma obra precisaria ter ou deixar de ter para ser considerada a pior película do mundo? Um roteiro sem qualquer caminho lógico evolutivo? Uma montagem caótica? Diálogos dramalhões à lá “A Usurpadora”? Barulinho de porta rangendo e gota d’água pingando na tigela em momentos completamente desapropriados? Cenas de luta corporal tão patéticas quanto as inexplicáveis fodas mal dadas? Saturação demasiadamente alaranjada? Hologramas terríveis?

Bom, eu vou encarar essa crítica como um grande gesto de generosidade. Mastiguem cada palavra como se fosse uma profunda demonstração de altruísmo, pois os pouco mais de oitenta minutos de Fogo Sombrio, novo thriller mexicano da Netflix que mais poderia ser discutido como mecanismo punitivo ao invés de entretenimento, eu não desejo nem para os meus piores inimigos.

Pelo que me foi possibilitado inferir da premissa do filme dirigido pelo mexicano Bernardo Arellano, o protagonista Franco (Tenoch Huerta), uma espécie de criminoso renegado, está a procura de uma parente sequestrada até que resolve se hospedar, sem maiores explicações, em um hotel macabro que serve de abrigo a um elenco digno da temporada mais espetacular do reality show “A Fazenda”.

Tem bizarrice para todos os gostos. Além do canastrão bigodudo, temos a femme fatale Rubi (Eréndira Ibarra), anões, zarolhas, prostitutas, cafetinas, mestre dos magos, médium albina, vampiros, demônios e mais o que você quiser. Sempre munidos do figurino mais antiquado possível e de uma maquiagem rivalizando breguice com o penteado.

Depois deste encontro assíncrono, pasmem: essa trupe acaba sendo interligada por uma grande lesma em formato de pênis com dentes afiados. Sim, é esse o elemento ritualístico genial que a direção encontrou para hospedar nos protagonistas a ideia de possessão em cadeia e representação do mal. Não existem palavras capazes de descrever tamanha bizarrice.

Como se não bastasse a nojeira, nada tem lógica. A montagem, a direção e o roteiro parecem ter sido feitos pelo mesmo adolescente satanista durante alguma dessas apresentações góticas repletas de mau gosto.

Previsivelmente tudo acontece de noite e o tratamento visual dado pela iluminação horrorosa destrói os resquícios de cenografia bem estruturados que poderiam ser valorizados pelo espectador cansado da fotografia escura.

Com o trash de meio século atrás e a tosquice das novelas mexicanas dos anos 90 competindo firme pelo prêmio de segundo pior elemento do filme, surgem as cenas de ação, os símbolos esotéricos e o misticismo sem pé nem cabeça pra acabar de vez com o bom humor de qualquer um que deu play nesta aberração da Netflix.

Eu confesso que muito antes do desfecho já tinha me perdido há muito tempo e mal conseguia me concentrar em quaisquer dos personagens, mas o parasita sobrenatural em formato de rola-molusco, passando de garganta em garganta, mantinha uma sensação letárgica de “aonde é que esta merda vai dar” que me impediu de desistir antes da última cena.

Pois eu deveria ter desistido.

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