O último ano do ensino médio não apenas conclui nossa longa jornada escolar, como também é, geralmente, a mais inesquecível (em vários sentidos) e a mais representada na sétima arte. Desde que o gênero se tornou popular, algum estúdio lança pelo menos uma produção que trata/se passa nessa fase turbulenta da adolescência. É nesse contexto que sai o hilário e aclamadíssimo Fora de Série, colocando-se numa posição de destaque entre produções atuais do gênero e de todos os tempos.

A comédia conta a história das melhores amigas Molly (Beanie Feldstein) e Amy (Kaitlyn Dever), as maiores CDFs da Crockett High School. É o último dia de aula e todo mundo vai festejar, mas a definição literal do verbo não parece “familiar” para as meninas. Apesar de ambas terem sido aprovadas em faculdades de alto gabrarito, Molly comenta que as duas passaram esse tempo todo ocupadas com estudos e não se divertiram. Qual a ideia genial da jovem? Em sumo, ela e Amy irão sair de sua zona de conforto e “recuperar” os quatros anos perdidos no ensino médio em uma única noite, sendo que o dia seguinte é a formatura. Uma série de loucuras é desencadeada e será impossível segurar suas gargalhadas. Eu até tentei, mas não deu muito certo.

Beanie Feldstein e Kaitlyn Dever: que dupla fabulosa! A química delas é impecável, parece super natural e, da maneira que elas entregam suas performances carismáticas, mostram que essa amizade escolar não é 100% perfeita, como inúmeras produções insistem em retratar. Seu timing de comédia é excelente e infalível tanto entre si como junto ao resto do elenco, igualmente engraçado. As personagens coadjuvantes também não decepcionam, destaco Jessica Williams como a professora Srta. Fine, Skyler Gisondo interpretando o extravagante Jared e Billie Lourd (filha da saudosa Carrie Fisher) na pele da histérica Gigi. Todos têm sua vez de brilhar e rendem alguns dos momentos mais engraçados do filme, além dos regidos por Molly e Amy.

Outro fator que faz esse filme ser incrível não poderia ser mais simples: é sobre mulheres e feito por mulheres. Grande parte da produção e todo o roteiro contam com presença feminina. Nesses tempos conturbados em que vivemos, onde o que mais buscamos na indústria é diversidade e representatividade, isso assume uma importância gigante.

Voltando ao longa, o roteiro é divertido, bem construído, conta com diálogos e cenas engraçadíssimos e trata de assuntos relacionados à comunidade LGBTQ, feminismo, bullying e etc. de maneira sutil e natural. Além disso, ele desconstrói e extermina os famosos estereótipos que conhecemos desde os tempos de John Hughes, fazendo com que nos identifiquemos ainda mais com as situações apresentadas. Não poderia terminar de elogiar esse futuro clássico sem parabenizar Olivia Wilde por sua maravilhosa estreia como diretora. É possível ver, em cada segundo que se passa, o cuidado que teve com seu elenco e tudo que lhe foi apresentado. Espero que continue dirigindo, porque seu potencial é enorme.

A gandaia não tem fim e o resultado final mostra que precisamos de mais histórias assim, não apenas no subgênero coming-of-age. Necessitamos de cineastas com maior sensibilidade diante das bizarrices que encaramos pela vida, mas sem fazer delas um espetáculo sensacionalista. Wilde e sua equipe pegaram leve no surrealismo e nos entregaram essa belezura de filme. Que outros sigam esse exemplo.

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