Quando eu tinha 10 anos, eu andava de patins e resolvi subir as escadas da minha casa, a despeito dos avisos e proibições da minha mãe, que previam uma feia queda. Sempre fui teimosa e dessa vez paguei pela língua – ou especificamente pelo braço. Ao descer, me estabaquei, caindo em cima do meu braço esquerdo, o que imediatamente me fez ter uma dor que só veio a se repetir remotamente aos 19 anos, que foi quando coloquei um DIU. Minha família correu até o hospital comigo e passamos por toda a burocracia do check in: espera para dar entrada, espera pra ser atendida, espera pra fazer raio-X. Finalmente, após ser atendida por um médico, fui pra sala de raio-X e meu pai ficou na recepção aguardando. Quando ele acordou, eu tinha desaparecido.

Ahá! Peguei vocês. Há um detalhe que evidencia a história ser, parcialmente, mentira: meu pai, que nuuuunca que ia tá presente. Piadas pesadas à parte, também o óbvio fato de eu não ter desaparecido, voltei com um gessinho, já autografado pelo plantonista, dopada e me achando com o novo acessório. Todo o resto é verdade e se assimila ao enredo de Fratura, que traz a história de uma menininha que quebrou o braço depois de cair em um canteiro de obras e foi levada pelos pais (pai: presente) pro hospital. E, depois de uma longa espera e finalmente ser atendida e encaminhada pra sala de raio-x, desaparece junto com a mãe.

Momento da queda, tão evitável quanto a minha de patins. A menina se assustou com um cachorrinho super gente boa e boom, caiu.

No entanto, há alguns detalhes que potencializam a reação de Ray (Sam Worthington), o pai, ao perceber o sumiço de sua família. O pai é catalizado não só pelo natural desespero ao se deparar com uma inesperada situação como essa, mas também é codirigido por culpa. Culpa por “deixar” a menina cair quando estava sob sua responsabilidade, no breve momento que a esposa vai ao banheiro. Culpa por não satisfazer as expectativas de Joanne (Lily Rabe), a mãe, com quem havia acabado de ter uma discussão divisora de águas no relacionamento dos dois. Culpa por problemas do passado que ainda assombram seu presente. Dentro da cabeça de Ray, a culpa e a preocupação se revezavam a direção de sua psique.

Incansável, Ray vasculha o hospital e não mede limites até achá-las. O hospital, em contrapartida, tem todo um ar bizarro que faz com que nós, espectadores, tenhamos por vezes a certeza de que aquele é um abatedouro e não uma instituição de saúde comprometida com o bem-estar de seus pacientes. No entanto, não há registros de passagem de sua filha, o que deixa o telespectador na dúvida sobre a própria história de Ray, embora torçamos pelo aparecimento de Joanne e da menina Peri (Lucy Capri).

“Faça alguma coisa!”, diz Joanne à Ray. E ele faz.

Sem dúvidas, o ápice do filme se dá pelo jogo que faz com a mente do personagem principal e, como consequência, com as nossas próprias. Verdade vs mentira, imaginação vs fato, ilusão vs realidade; todos esses pares e outros mais entram em justaposição e são explorados de maneira bem-feita na trama. Por outro lado, há de se destacar a atuação pífia de Sam Worthington que, não fosse o restante bem consolidado do filme, afundaria o longa facilmente.

A narrativa percorre caminhos satisfatórios, sem furos de doer os olhos e ainda dá aquele nervosinho característico de thrillers de qualidade. Em suma, Fratura é um honesto filme de suspense que articula bem o mistério, engaja o telespectador e entrega uma produção balanceada e que dispõe em tela um convite aos labirintos da mente humana.

O que é virtual e o que é real?

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