Esta é a resenha da 2ª temporada de Frontier, logo, teremos spoilers brutais da 1ª temporada no texto abaixo.



Se você está lendo isso aqui, então você deve ter assistido a 1ª temporada de Frontier. Se você não assistiu, então termine de ler o parágrafo a seguir e não vá adiante, já que, ao terminá-lo, eu vou ter te dado um resumão da 1ª temporada e vou seguir com spoilers brutais dela no seguinte.

Acredito ser quase que um consenso entre as pessoas que assistiram a série de que os dois ou três primeiros episódios da 1ª temporada pintam uma paisagem tenebrosa, já que eles se limitam a apresentar personagens unidimensionais, contam com uma direção quase novelística e um roteiro que faz os fast travels de Game of Thrones parecer fichinha. Uma vez feito isso, a trama consegue dar uma melhorada ao desenvolver melhor seus personagens e, principalmente, dar mais tempo de tela ao magnetismo em forma de gente que é Jason Momoa. Ainda assim, a história de vingança de Declan Harp (Momoa) contra Lord Benton (Alun Armstrong) e das muitas disputas pelos comércios de peles e couros de animais em um vasto território que hoje faz parte do Canadá deixou aquele gosto amargo e indelével de uma oportunidade desperdiçada.

Esta 2ª temporada retoma imediatamente de onde a 1ª acabou. Declan, após ter sido salvo das garras cruéis de Lorde Benton por Michael (Landon Liboiron) e Sokanon (Jessica Matten), escapou ainda mais para o norte onde foi se refugiar com esquimós. Benton, que tomou um tiro de Michael quando da fuga de Declan, está convalescendo em sua cama. Michael e Sokanon tentam manter viva a companhia Black Wolf de Declan enquanto este está sabe-se lá onde. Ao mesmo tempo, o capitão Chesterfield (Evan Jonigkeittenta deixar de ser um maluco tão merda quanto na 1ª temporada e finalmente pegar a dona do bar, Grace (Zoe Boyle).

O que temos de novidade aqui é um foco maior no pessoal de Montreal e finalmente uma preocupação maior em explicar e/ou pelo menos falar um pouco mais sobre o efetivo comércio das peles naquela região. Pelo que se depreende da 1ª temporada, imagina-se que o pessoal está ocupado demais se matando para conseguir comprar e vender qualquer coisa. Em Montreal, temos agora mais acesso aos personagens de Samuel Grant (Shawn Doyle) e seu “amiguinho” psicopata Cobbs Pond (Greg Bryk), além da viúva Carruthers, Elizabeth (Katie McGrath), ambos fazendo gato e sapato dos irmãos escoceses Brown, Malcolm (Michael Patric) e Douglas (Allan Hawco).

A vantagem dessa temporada é a ausência daqueles episódios realmente pavorosos da 1ª, mas a produção, o roteiro e a direção continuam tão sem inspiração como outrora. A reconstituição de época, apesar de competente, é bem genérica, o desenvolvimento dos personagens é pautado por clichês mais do que estabelecidos (o ladrão gente boa, a boa selvagem, o revolucionário que luta contra as corporações, o vilão que é mau igual ao pica-pau…), salvando-se aqui, mais uma vez, Momoa, o sotaque absolutamente delicioso dos irmãos Brown e o jogo de gato e rato entre Declan e um sujeito que parece estar fazendo cosplay do Montanha de GOT de tão gigante.

No mais, temos mais do mesmo. Benton sendo um sujeito puramente mal, assim como todos os demais vilões do filme, Declan entrando em uma enrascada a cada episódio e miraculosamente se safando dela e absolutamente ninguém matando Grace, a dona do bar, quando ela claramente está de agente triplo aos olhos de qualquer um que olhe de soslaio.

Cabe destacar também a beleza de Katie McGrath e o conforto que ela demonstra na interpretação da viúva Carruthers. Confesso que este núcleo, à exceção de toda e qualquer cena protagonizada por Jason Momoa, é uma das poucas coisas que me fez continuar vendo a série até o final.

Enfim, trata-se de um recorte histórico e de uma região raramente retratada nas telinhas ou nas telonas. É raro que haja uma obra qualquer sobre algum evento histórico que tenha se passado no Canadá, em especial quando se trata de uma guerra quase que exclusivamente corporativa, sem qualquer ideologia que não aquela do lucro, muito embora haja uma tentativa desesperada de se pintar o protagonista como uma espécie de redentor daquela gente. Apesar da produção cenográfica e da reconstituição história relativamente consistentes, Frontier peca ao apostar em uma narrativa que você certamente já viu antes e melhor (pense no magistral O Regresso, por exemplo), sem que apresente qualquer fato novo ou até mesmo uma alma que consiga fazer com que a série se destaque dentre as demais.

A 2ª temporada é, portanto, muito parecida com a primeira. Desta vez temos também o adendo de que sua fotografia melhorou sensivelmente de lá para cá, fazendo valer a pena aquele trocado a mais que você gasta no plano 4K da Netflix, em especial nos momentos em que Declan Harp está mais ao norte. Apesar disso e das boas e violentíssimas cenas de ação, fica aquele gosto no fundo da boca de que a coisa tinha tudo para ter ido além, mas, por culpa principalmente do roteiro, ainda não foi dessa vez.

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