É com a maravilhosa canção interpretada pela rainha Elza Soares, que arrisco dizer ser a cantora e mulher brasileira mais fantástica ainda viva, que inicio a crítica de Fugitiva. Lançada alguns dias antes do Dia Internacional pela Eliminação da Violência de Gênero, a série espanhola aborda em seu fundo a temática da agressão contra a mulher, tendo sua personagem principal, Magda (Paz Vega) como a vítima desse abuso. O denominador em comum de ambas é óbvio: a Arte sendo forma de resistência e protesto contra absurdos por aí.

No entanto, diferente da música da deusa acima, a série deixa muito a desejar. Apesar de trazer uma interessantíssima temática e expor a personagem à caminhos de fortalecimento e redescobertas dentro e, depois, fora do relacionamento abusivo que vivia, a narrativa é carregada de um dramalhão que excede o necessário. Encharcada por tal, torna-se difícil continuar concentrado na importante mensagem tatuada em seu roteiro: mulheres, enfrentem, reajam, cuidem-se e preservem-se, custe o que custar.

Lar doce lar: o semblante de uma família sustentada unicamente por aparências.

A história nos mostra uma família de classe alta em que padrões luxuosos disfarçam o verdadeiro inferno matrimonial que é vivido. Alejandro (Julio Bracho) é um empresário mau-caráter e marido asqueroso, que espanca a mulher de tempos em tempos e mantém a pose perante os filhos. Após exaustivas tentativas de sair da situação, inclusive legalmente, Magda resolve tomar uma drástica decisão: fugir com seus filhos.

No que tange a retratação de um relacionamento abusivo e violento física e psicologicamente, a produção segue por caminhos certeiros que lidam com empatia para o infeliz e corriqueiro fenômeno, considerando a insensibilidade enraizada em um senso comum que simplifica a situação e a reduz a uma mera questão de ser permissiva ou não. Não se trata de permissividade. A teia pela qual mulheres em situação de violência estão envoltas é muito mais complexa do isso; sair de uma realidade abusiva exige força física e mental de alguém que carece por no mínimo uma dessas.

Alejandro desespera-se quando sua esposa troféu e seus filhos, que mal lhe conhecem, somem do mapa.

Contudo, como já anunciado, esse acerto de temática e condução dela não é o bastante. Lamentavelmente, a série é escassa no restante do roteiro, assimilando-se com uma novela mexicana – inclusive na própria abertura, digna de ser transmitida no SBT ao lado de Rubi e afins. Algumas pontas no roteiro se tornam escandalosamente evidentes e mal costuradas, assim como uma história que beira o apelativo e forçado.

A atuação de Paz, conhecida por “Lucía & o Sexo” e por “Espanglês“, ameniza e evita o desastre total. Por fim, Fugitiva é uma série com pontos fortes mas que não sustentam ou justificam totalmente sua existência. Entretém, mas também causa enjoo e reviradas de olhos cá e lá. Aconselho fortemente a desde já a pulada da abertura para uma avaliação mais justa da produção, visto a música chiclete de Ana Guerra (aka Anitta espanhola).

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