Como alguém que avalia filmes, tento me manter aberta o suficiente para não deixar que meus gostos particulares no Cinema limitem ou interfiram pesadamente nas minhas análises. Isso não quer dizer, no entanto, que me corrompo e forço a barra. É mais que claro quais são minhas preferências e delas não abro mão; mas tento, na medida do possível, expandir meus horizontes ao assistir produções fora dessa bolha. Dentro dessa lógica, eis que estreia e assisto a Fúria Feminina, longa vietnamita dentro do gênero de ação que conta com um protagonismo feminino que poderia, quem sabe, ser uma deixa para meu engajamento.

O filme narra a história de uma cobradora de dívidas numa área camponesa do Vietnã, um país que ainda tem a agricultura como recurso importante em sua economia – apesar de também ter, curiosamente, a exportação industrial como forte pilar. Essa mulher, de nome Hai Phuong (que também é o título do filme e que que mostra que a tradução para o português é pura jogada de marketing e que não há nada novo sob o sol), vive uma vida de cão (cadela seria o melhor xingamento) e sustenta sozinha a filha às custas dessa profissão mal vista por todos do vilarejo. Sua reputação é das piores: mãe solteira com pai da criança desconhecido e, além disso, é vista como X9 pelo campesinato, já que trabalha à favor dos grandes fazendeiros. Pra finalizar, enquanto mãe ela se sente insuficiente já que por conta de sua rotina a filha sofre represália dos moradores e amiguinhos da escola.

Mai, a filha, e Hai Phuong, a mãe

O diferencial de Hai Phoung é que ela é durona: domina artes marciais sendo uma espécie de Jackie Chan vietnamita e não abaixa cabeça pra ninguém – não à toa faz o trabalho que faz, sem poupar porrada quando se mostra necessário. Até que em um dia normal como outro qualquer sua filha é sequestrada por uma gangue e Hai Phuong percorre céus e terras atrás da menina, fazendo uso de suas técnicas de luta e mostrando uma disposição inacreditável movida pelo instinto materno. É nisso que a narrativa do filme insiste até o fim: numa mãe que, tal qual uma tigresa, não desiste até retomar sua cria. Ok.

Infelizmente, por mais que a proposta seja até aceitável (apesar de eu achar particularmente clichê e apelativa), o filme entrega isso de maneira miserável, enchendo a tela com cenas de combate cansativas e falas intragáveis em sua obviedade e vazio. Apesar de se propor a defender com garras e dentes esse discurso da força de uma mãe, ele se perde dentre tanta ação e furos de roteiro que visam apenas cenas aceleradas de lutas intermináveis, irreais e previsíveis. Uma enorme ironia acaba acontecendo: um filme de ação se mostra entediante.

Um dos muitos caras que Hai Phuong meteu a porrada – e eu nem me lembro mais por quê, pra ser sincera…

Hai Phuong vai até o centro de Saigon, a que é assim chamado no filme mas há boas décadas leva o nome oficial de Cidade de Ho Chi Minh desde que a região foi unificada e começou a se industrializar, tornando-se a cidade mais populosa do país e coração comercial e financeiro também, o que é relevante de se dizer porque o filme mostra um dos horrores dessa modernização da região: o sequestro de crianças para fins comerciais no mercado negro. É contra isso que a personagem luta no filme, colocando em prática especulações investigativas já feitas pela polícia local mas que não se mostram efetivas na realidade, emaranhadas em protocolos e burocracia.

Sem nenhum sucesso ao procurar as autoridades, Hai Phuong segue sua jornada e cruza com diversos grupos que geram conflito e, mais uma vez, cenas de combate ocupam a tela. Não há mais muito o que se falar de Fúria Feminina. No fim das contas, não é possível anexá-lo como uma tentativa de empoderamento ou qualquer coisa assim, a não ser adotando uma perspectiva rasa que confunde representatividade com lugar de fala. Não basta enfiar uma mulher num filme e bum, a mágica acontece. Tampouco acho que seria necessário ter o discurso de empoderamento para o filme ser de boa qualidade. Falta tempero numa produção de um cinema ainda embrionário, que precisa crescer para além de clichês e adentrar de maneira mais selvagem em suas narrativa; um derivativo barato da produção comercial de ação mundial não pode ser a única representação de um país tão complexo como Vietnã.

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