Como um headbanger incondicional, eu tenho muita frustração com eventos como Rock in Rio, que, sendo apenas uma sombra de outrora, apresentam apenas algumas poucas atrações de peso do heavy metal e hard rock. Anunciado pouco antes de virar o ano, em 2011, o Metal Open Air (MOA) deveria ter ocupado na história dos festivais do Brasil um lugar de destaque, além de satisfazer esse vácuo deixado pelo antigo RIR, Monsters of Rock e Hollywood Rock da vida, transformando São Luis do Maranhão na Meca dos metalheads latino-americanos. Como você pode imaginar, por estar abrindo a resenha de um documentário sobre uma festa caribenha que foi pro caralho, o MOA é possivelmente o maior desastre recente de organização de um festival no Brasil (veja a matéria).

Agora imagine a sensação que senti ao assistir o trailer e depois conferir o vídeo promocional da famigerada Fyre Festival. Foi um misto de descrença e familiaridade que me deixou tão intrigado ao ponto de me indagar se era de fato um documentário de um evento real ou se, baseado no nome do organizador, Billy McFarland, era mais um mockumentary da NETFLIX, como o bom “Vândalo Americano” (veja as críticas da 1a temporada2a temporada).

E, para minha surpresa, de fato estava vendo um mar de promessas que não foram entregues, causando enorme prejuízo e desiludindo milhares de pessoas. Tudo por conta de uma ideia faraônica para promover um aplicativo de gerenciamento chamado Fyre, que permitiria contratar pessoas influentes/famosas para aparecerem em suas festas. Para isso, McFarland e seus sócios acharam uma boa fazer uma festa para 6 mil pessoas em uma ilha particular nas Bahamas que pertencia ao Pablo Escobar, praticamente deserta, sem qualquer infraestrutura e com algumas poucas semanas para organizar. O que poderia dar errado?!

Apenas fraude, esquemas, mentiras, manipulação e muita sociopatia. Com apenas 10 minutos de documentário, após ver a propaganda do evento e a completa falta de informação nas semanas seguintes ao anúncio, uma luz vermelha acendeu e estava evidente que isso daria merda. E o mais assustador foi a forma como os organizadores lidavam com os avisos que a festa não daria certo e que o mal causado pelo seu cancelamento seria muito menor, contratando novos prestadores que validavam as suas péssimas escolhas. Considerando gerenciamento de risco e o bom senso, o que assisti em Fyre Festival: Fiasco no Caribe foi ofensivo.

Além disso, não consigo imaginar como gastar algo em torno de 60 milhões de dólares pode ser rentável para o lançamento de um aplicativo por uma empresa sem nome e com cérebros por trás que não são os expoentes do empreendedorismo global. Há muito do que ser tirado desse fiasco. Dentre as questões que permitiram que isso ocorresse, talvez a mais perturbadora, seja a necessidade de pertencimento a algo exclusivo vendido para uma elite financeira e que foi praticamente impulsionada apenas pelo poder de mídias sociais como o Instagram. O poder retido pelo digital influencer nos dias de hoje inclusive é colocado em cheque legalmente, abrindo um leque de discussões pertinentes sobre a nossa sociedade que a cada dia fica mais superficial.

Mais uma vez, com o roteiro bem arrumadinho e sem barrigas, a NETFLIX nos deixa na dúvida se McFarland é um gênio, um imbecil ou um trambiqueiro. Caso você queira saber mais do ocorrido, leia essa matéria da CNN.

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