Não sou transgênero. Portanto, nunca conseguirei me colocar no lugar de uma mulher trans inteiramente. Meu único acesso é pelo recorte em comum do chamado ser mulher –, e acaba aí. Tenho algumas conhecidas trans. De maneira corriqueira observei esse universo, mas longe de ser aprofundadamente. Sei pelo que elas me reportam: a dificuldade de relacionar-se, a solidão como consequência, a confusão do lugar dentro do feminismo (como se não bastasse a já imaginada confusão de encaixe na sociedade), o fetiche, o desrespeito.

Na minha visão, a mulher trans está num dos lugares mais sensíveis da sociedade, por receber a fusão do sexismo com a intolerância queer. Por tudo que disse, acredito que a mulher trans precisa e muito do feminismo (indo contra algumas correntes que discordam de sua presença nele), arriscando dizer que até mais do que uma mulher cis pela junção de tantas outras questões.

Girl nos traz a história de Lara, uma adolescente belga de 15 anos que aguarda pela operação de troca de sexo. Diferentemente do Brasil, em que essa história seria retratada de maneira muito mais violenta (somos o país que mais mata transexuais NO MUNDO), a menina tem uma vida razoavelmente comum. Sua família não a vê como um problema; pelo contrário, seu pai incrivelmente a apoia e conhecidos não são ativamente intolerantes, até certo ponto.

O contraste de sociedade é realmente assustador. Mas não quer dizer que a menina, apesar de, sim, ter privilégios de um país “de primeiro mundo”, não continue tendo a árdua tarefa de lidar com uma puberdade ainda mais cruel do que a biologicamente feminina: a de alguém que está no processo de transição/adaptação à terapia hormonal. A coisa toda de mulheres entrarem numa neura fodida sobre o próprio corpo para se validarem enquanto mulheres é levada a outro nível no caso de Lara, que parece depositar na retirada de seu pênis a grande validação dela ser mulher.

O filme peca feio em algumas questões. A começar pela escolha de um ator cisgênero para o papel de Lara, e não uma atriz trans. Não se trata de mera representatividade (que é importante) mas também de ser mais justo em termos de expressão, afinal tenho certeza que não faltam atrizes talentosas e promissoras por aí dispostas a colocar um pouco de sua vivência na personagem.

Além disso, sinto que pela produção ter tido pouca influência de pessoas transgênero o resultado final fica um filme para agradar justamente o público não-trans. Agradou. Gostei. Mas tenho a forte impressão que não deveria ser tão feito para mim, e que alguém trans acharia raso. O foco excessivo na aparência física da personagem é um elemento que embasa isso. A forma brusca que relacionam a terapia hormonal com as mudanças da menina também é um fator, já que me pareceu senso comum demais.

Por fim, Girl é uma boa iniciação a um universo por tantas décadas ignorado ou apenas ridicularizado pela grande mídia. Nesse sentido, serve como entrada para acesso a um nível de empatia razoável vindo de um indivíduo padrão não muito familiarizado com o tema. Tem sua importância por isso, afinal de algum lugar deve-se começar. Mas deixa a desejar, paradoxalmente, também pela limitação em função do compromisso com o público cisgênero – inclusive, estou mais que aberta a dialogar sobre o filme na sessão de comentários com mulheres trans para que minha análise vá além do denominador em comum de ser mulher que me auxiliou até então.

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