GLOW (Gorgeous Ladies of Wrestling) é uma série despretensiosa, divertida, leve, concisa e com um elenco diverso e bem arrumadinho. Ou assim era na sua 1a temporada. Na sua 2a entrada, um ano após a sua estreia, GLOW abre mão de algumas de suas características principais para se levar mais a sério e abordar temas em voga. O feminismo passa a ser uma parte importante da pauta da obra, que agora foca nas relações afetivas e de poder entre seus personagens principais.

Ruth (Alison Brie) e Debbie (Betty Gilpin) são as encarregadas de levar o tema adiante em busca de reconhecimento pelos seus talentos e competência em um universo dominado essencialmente por homens brancos heteros e desprezíveis, como bem podemos ver nos noticiários abarrotados de denúncias de abuso sexual por parte de produtores e executivos de emissoras/estúdios, o que GLOW denuncia que existe há décadas. Sam (Marc Maron), desde a 1a temporada, incorpora um misógino nato, completamente inseguro e descontando sua frustração em qualquer mulher que mostre iniciativa ou qualidades que o superem. Apesar de ser uma pauta relevante, todas as resoluções surgem da redenção dos homens no poder e raramente vêm de uma conquista genuína feminina, como é o caso do próprio Sam, que, por ter uma filha interessada no meio cinematográfico, passa a aceitar contribuições – que são notoriamente boas para o show que eles estão filmando – de Ruth e Debbie, que por sua vez vira uma das produtoras junto com Bash (Chris Lowell).

Que personagem carismático e relegado na maior da temporada foi o Bash. Tanto ele quanto Yolanda (Shakira Barrera) – nova adição muito bem-vinda ao elenco – abrem uma segunda frente de discussão que mal tem aprofundamento até os episódios finais, onde acabam ganhando maior destaque por eventos que te acertam como uma locomotiva. Ter dois personagens homossexuais, uma completamente confortável com sua escolha de ser aberta quanto a sua sexualidade e outro ainda lutando contra sua própria aceitação, no mesmo ambiente de trabalho, com relações de poder, gêneros e classes sociais diferentes, poderia ter enriquecido a trama.

Nessa temporada, continuamos com as lutadoras e seus personagens com estereótipos ofensivos e como isso é bom. E não é bom porque é ofensivo. É bom porque essa ofensividade levanta questionamentos sobre o retrato maldoso e caricato das causas de certas etnias e povos. Nada mais emblemático do que Arthie (Sunita Mani) tentando sair do seu personagem islâmico terrorista com uma narrativa de renascimento sob uma nova perspectiva de gosto pessoal, incorporando uma fênix. São nesses momentos que GLOW brilha, fazendo críticas sociais ao mesmo tempo que a luta livre permite cenários fantasiosos e hilários. Ainda vemos a relação das lutadoras, com uma discreta fama, com seus fãs que assistem ao programa matinal na televisão.

Meu amigo leitor com menos de 15 anos, na década de 80 ainda não existia internet para consumo civil. Isso significa que você tinha que saber o horário que o seu programa favorito ia ao ar e não podia simplesmente sentar, sacar o celular e assistir o que você quisesse, quando quisesse. E caso o seu programa favorito saísse do horário entre 10h e 13h e entre 18h e 20h, e fosse para madrugada significava que ele não dava audiência e que seria cancelado. Quantos de vocês assistem o Corujão? Eu só via quando estava internado no hospital e sem qualquer condições de dormir. Faz sentido, né? Pra que ocupar a grade de programação se anunciantes não terão para quem anunciar. É exatamente o que acontece com GLOW, que é substituído por uma espécie de “GGOW” (Gorgeous Gentlemen of Wrestling – e isso não é spoiler, pois tá no trailer) e engrossa o discurso feminista da série.

Isso abre caminho para algo que costuma produzir grandes pérolas. O que você faz quando sabe que vai perder algo, mas ainda tem algum tempo com aquilo? O que quiser e sem restrições! É quando a 2a temporada decola e produz 3 excelentes episódios finais, sendo um deles a exibição do próprio programa GLOW pela NETFLIX. Foi “delicioso”, como alguns colegas de site costumam falar. Mesmo que tenha deixado um gosto bom, esse final não conseguiu elevar a 2a temporada à altura da primeira, muito porque a série funcionou muito mais como drama do que comédia, ainda que tenha cumprido seu papel como sequência. Serviu para aprofundar os personagens e relações e apresentou novos desafios a serem superados. Eu veria até no horário do Corujão.

 

Sugestões para você: