Estreando hoje na NETFLIXGodzilla: Cidade no Limiar da Batalha dá continuidade à trilogia que se iniciou com o 1o longa disponibilizado fora do Japão em janeiro desse ano, “Godzilla: Planeta dos Monstros“. Antes de tudo, precisamos resgatar algumas questões da crítica do filme anterior. Eu não sou versado no lore de Godzilla e acho a maior parte do filmes (não todos, salvando aí alguns clássicos) intragáveis, incluindo o “Godzilla”de 2014 e o de 1998 produzidos por Hollywood. E por que é importante dizer isso? Eu conheço a frustração de você estar imbuído em um universo que tem um significado especial na sua vida, mas que não é representado fielmente em outros formatos fora do original. Como fan de animes (e por isso eu estou aqui) e games, entendo perfeitamente essa frustração. No entanto, adaptações podem ser boas do ponto de vista leigo da obra, mas aos olhos do “purista” não correspondem às expectativas, arruinando a experiência. Hoje, eu sou esse leigo, pelo menos no que se refere a mitologia do Godzilla.

É importantíssimo que você veja a 1a entrada da trilogia. Godzilla: Cidade no Limiar da Batalha não funciona em nenhum nível caso você esteja desprovido dos pontos centrais previamente desenvolvidos. E a isso faço uma grade ressalva ao longa. Por não ter que desenvolver esses pontos cruciais – que fizeram do 1o filme um tanto enfadonho – o longa focou justamente naquilo que faltou de bom no “Planeta dos Monstros”: pendenga entre aliens e humanos, o verdadeiro Godzilla e o entendimento do que aconteceu com a Terra.

Começamos com Haruo (Mamoru Miyano) e sua equipe (ou o que restou dela) sendo resgatados por uma tribo de nativos chamados houtuas, que aparentemente lembra muito um ser humano e aponta para a sobrevivência da espécie mesmo com o planeta passando por transformações drásticas em suas esferas (atmo/bio/hidro/litosferas). Mesmo sofrendo uma derrota gigantesca, Haruo e cia. percebem que seu plano de matar Godzilla ainda é praticável, tendo somente que aumentar a escala do plano de ação. Porém, eles contam com efetivo menor e menos aparatos para realizar essa tarefa e é aí que entra o povo houtuas. Eles usam em suas flechas um metal de grande penetração, o mesmo usado pelos bilusaludos para construir o Meca-Godzilla que supostamente foi destruído antes de entrar em atividade pelo Godzilla e que foi a tentativa final de deter o Lagartão no séc XXI. Eles saem a procura dos restos do robozão enquanto a galera que ficou na nave, vendo que o Godzilla que a equipe matou foi uma versão de bolso do original (que agora mede 300 metros!), considera deixar o Sistema Solar novamente. O longa se desenvolve na esperança de conseguir matar Godzilla arriscando tudo ou viver como refugiados no espaço.

Finalmente tivemos desenvolvimento entre as espécies humanoides que o 1o longa deixou de lado. Os exifs são edificados na fé, sendo praticamente fundamentalistas, enquanto que os bilusaludos seguem o ensinamento do Et Bilu (como você pode ver no vídeo abaixo), seu profeta que visitou a Terra no início do século XXI e que pregava o conhecimento e a lógica. Ao mesmo tempo que o anime subverte a questão fundamentalista na tonalidade da pele das raças, com o europeizados exifs sendo religiosos e os arábicos bilusaludos seguindo a razão, reafirma a visão distorcida que temos desses povos ao mostrar os bilusaludos sendo radicais em sua forma de ver o mundo, a custo inclusive de outras vidas. No mais, o conflito criado entre as 3 espécies para matar Godzilla é o ponto alto do longa, levantando questões éticas e morais sobre a percepção de nossas ações.

O ambiente no qual a Terra se encontra é outra questão interessante que o 1o longa deixou de lado que esse aprofunda. Há uma forte crítica ao aquecimento global e poluição de nosso ambiente, o que favoreceu o surgimento de Godzilla, personificando o mal que fizemos ao planeta. O problema está na explicação de como o ambiente mudou tanto em apenas 20 mil anos. Embora não saibamos como estão outras partes do globo, a região onde está o Godzilla foi modificada pela sua presença a um nível assustador, condicionando a atmosfera e os seres vivos profundamente, mais do que a humanidade foi capaz com toda a sua tecnologia. Como a genética propõe (com mutações) e o meio dispõe (com a seleção natural), fica difícil acreditar que apenas um ser consiga influenciar tanto o seu entorno.

Caso você consiga ver além de um filme de monstro gigante destruindo tudo – o que acontece bem pouco nesse longa, já que não existe mais o que se destruir – há aqui uma história de luta pela sua terra natal e de seus ancestrais que construíram uma civilização e uma história em um planeta do qual fazemos parte. Mesmo não sendo uma bela alegoria sobre refugiados ou da convivência entre diferentes culturas em prol do um objetivo comum, o longa consegue resvalar nesses temas muito atuais e te pergunta o que você está disposto a sacrificar para conseguir o que quer? Agora é aguardar o 3o longa para descobrirmos.

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