Finalmente a NETFLIX disponibilizou a última parte da trilogia animada de nosso lagartão favorito, Godzilla: O Devorador de Planetas. É um tanto óbvio, mas sob a pena de parecer redundante devo avisar que por ser uma conversa sobre a parte final de uma obra, aqui teremos spoilers sobre Godzilla: Planeta dos MonstrosGodzilla: Cidade no Limiar da Batalha. Recomendo fortemente que assista aos longas e leia as críticas antes de prosseguir.

Há muito tempo eu não via uma trilogia cujos filmes possuem dificuldade em funcionar isoladamente, mesmo apresentando estruturas clássicas em suas narrativas e focando em determinadas temáticas (que até se complementam). Nota-se que a continuidade foi pensada detalhadamente para elaborar os longas e cada um assumiu seu papel com os ônus que lhes cabiam. O 1o, com foco nos humanos, tinha um ritmo lento e introdutório, que sacrificou a ação esperada para consolidar os personagens e uma história – carecendo de plausabilidade – cativante. Mas o preço foi alto e o ritmo da obra transformou a experiência em algo que, mesmo não sendo bom, deixava em aberto as possibilidades.

Valendo-se do sacrifício do primogênito, a 2a entrada, focada nos bilusaludos (hail, ET Bilu!), parte direto para a ação e aborda as questões mais interessantes que ficaram sem respostas no Planeta dos Monstros. Dentre elas – e que terá grande repercussão na 3a parte – estão as desavenças entre as espécies humanoides pelas atitudes imorais (?!) tomadas por alguns líderes durante o combate para matar Godzilla. Acabando em um momento onde tá tudo indo pro caralho, com a cidade Meca-Godzilla e os bilusaludos se tornando um só, Haruo é obrigado a optar entre manter a sua humanidade e não ser absorvido/deixar seus companheiros virarem parte da cidade a contra-gosto ou optar por sacrificar tudo e matar Godzilla, escolhendo a 1a opção e levando a uma crise entre as 3 espécies de humanoides. Eis que começa a 3a e última parte dessa trilogia.

O longa abre com uma cena que ditará o que será o longa, com Metphies, um exifs, em uma bela reflexão sobre a inabilidade humana em saber lidar com seu livre arbítrio, enquanto Haruo é pintado quase como um messias. Enquanto isso, os bilusaludos estão pistolas na nave que está orbitando a Terra e exigem que Haruo seja preso e julgado por ter assassinado seus semelhantes e, de quebra, ter deixado o Godzilla vivo. Tudo parece perdido. A cidade Meca-Godzilla destruída, muitos mortos, recursos praticamente nulos e a aliança se sustentando por um fio.

Começa, então, o embate filosófico de bar que todos esperamos entre os exifs e os humanos sobre o conceito/existência de Deus, poder da religião, a lógica e o saber. Passamos a metade do filme sem ação alguma, o que não é um problema, mas que pode deixar as mentes mais impacientes frustradas esperando um confronto final de proporções épicas. Embora eu estivesse com essa expectativa, essa ausência não me fez falta e, mal ou bem, o 2o filme preencheu essa lacuna. Pode-se dizer até que esse é um longa anti-climático, mas ainda há muito o que ser apreciado nele.

Apesar da retórica interessante, o desfecho de toda a discussão é bem merda, com o Deus dos exifs tomando forma física (nem é spoiler, o Ghidorah tá no poster) que, além de não fazer o MENOR sentido – mesmo com o anime se esforçando na explicação -, sabota o esforço e sofrimento pelo qual todos os 3 povos passaram desde que Godzilla surgiu. Contudo, desconsiderando isso, dá para tirar bastante proveito do resultado do aparecimento de Ghidorah em diálogos edificantes e nas cenas de “ação” que ocorrem em câmera lenta e não são nada emocionantes.

Mas o que mais jogou contra a obra foi o descarte de certos núcleos que vinham funcionando bem, como a galera que ficou na nave e que teve pouco tempo de tela, e alguns fans services que pouco contribuíram para a narrativa, como a curtíssima participação especial de Mothra. Não deu tempo nem de falar “let them fight!“. Isso sem nem me aprofundar em uma cena pós-créditos que eu não sei porque não fez parte do final propriamente dito.

Isoladamente, Godzilla: O Devorador de Planetas tem os seus problemas, mas ainda assim consegue funcionar. Já como um todo, posso dizer que a trilogia cumpre seu papel ao introduzir uma releitura do nosso lagartão em um contexto futurista, que joga com a forma como tratamos o planeta e, especialmente, como nossas visões de mundo contrastam com as dos nossos semelhantes, que, impulsionadas pela política “minha necessidade é mais importante do que a sua”, resulta em catástrofe.

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