Encaixar-se em um conceito fechado de alguma coisa parece uma antiga e ainda presente obsessão humana. Seja agarrar-se à um só tipo de gosto musical ou, indo às profundezas mais abstratas, desenhar um quadrado em volta de sua própria sexualidade. Com isso quero dizer que é muito comum observar uma necessidade em validar sua orientação sexual – por mais diversos que os motivos sejam – e, também, a julgar um desvio dentro desse rótulo. Seja entre heterossexuais, que por serem considerados dentro do padrão se acomodaram a ficar ali intocáveis mesmo em sua bolha de privilégio, seja entre homossexuais, que se agarram à sua orientação como resistência e que por vezes isso desanda, formando também uma bolha (ainda que diferente), o fato é que em ambos os casos notamos o compromisso com o rótulo.

E por que estou falando isso tudo? Colocando na prática, uma lésbica ou gay tem que “provar” sua orientação sexual, sem jamais cair em “tentações” do outro lado da ponte – pois sofreria o risco de ter sua orientação reavaliada. Dentro da comunidade, por mais acolhedora que seja, há resquícios de backgrounds culturais que possibilitam que essa patetice aconteça. O que não é considerado aí é a complexidade entre espectros da sexualidade humana, que desafiam as previsibilidades cíclicas que pensamos ter esclarecidas. Gostos e Cores se propõe a trazer à luz a história de Simone (Sarah Stern), uma lésbica de carteirinha que inesperadamente se apaixona por Wali (Jean-Christophe Folly). Além do óbvio, há também um detalhe: ela vive com a namorada, Claire (Julia Piaton), há três anos.

Um casal adoravelmente shippável passando por sua tela!

O enredo do filme é interessante do ponto de vista crítico, por estimular uma reflexão quanto ao aspecto imprevisível da atração sexual, além de não pecar (graças a deus) em atribuir o caso de Simone e Wali à alguma possível insatisfação no relacionamento entre ela e Claire. Muito pelo contrário: as duas têm uma dinâmica madura, uma vida sexual em sintonia e parecem partilhar uma felicidade plena. Agradavelmente, a partir dessa escolha de construção das personagens e da relação delas, deixamos longe aquele discurso asqueroso que, infelizmente, lésbicas bem conhecem: “ah, mas você ainda não conheceu a pessoa certa!”. Vulgo: O Homem Da Sua Vida. Simone já conheceu, sim, a mulher da sua vida – como ela mesma fala – e não é, de jeito nenhum, a partir de uma falta que ela se envolve com Wali.

Outro ponto positivo do longa é o retrato não estereotipado de lésbicas. Chega de pintar mulheres alternativazonas, de cabelo colorido, estileira tomboy com roupas masculinas, modos subversivos, etc. (Nota textão de esclarecimento: eu acabei de descrever a Emma do “Azul é a Cor Mais Quente” sim, e eu sou apaixonada por ela, mas não deixa de ser um estereótipo que, como tal, condiciona o público a esperar esse comportamento de uma lésbica pra que ela seja “raiz”. O legal de negá-lo, apesar de particularmente adorar também esse estilo, é mostrar a multiplicidade existente – e por vezes apagada – entre mulheres que gostam de mulheres). Sim, continua sendo uma história aí entre duas mulheres brancas PADRÃOZAÇO, mas atentemo-nos pro fato de que a escolha inclusive desse padrão faz sentido, visto que uma delas vem de uma família judia tradicionalíssima que é, além de homofóbica, racista.

Simone e suas amigas timão, além de seu irmão, também gay, comemorando o aniversário

A inserção da problemática judia pela família ortodoxa de Simone também é bacana e funciona bem, desenvolvendo-se adequadamente para um filme de comédia. A religiosidade entra em choque em outros momentos, tais como o fato de Wali ser senegalês e muçulmano. Desnecessário explicar o estranhamento entre judeus e muçulmanos, certo? Curiosamente, o fato dele ser negro é pouco explorado – e é bom que tenha sido assim, pela menor relevância na história que traz mais as questões religiosas e sexuais.

No entanto, apesar de ter destacado coisas ótimas do filme, ele decepciona bastante por propor como resolução algo não só mal desenvolvido como miseravelmente previsível. A impressão de que o roteirista ficou com preguiça de pensar numa melhor solução e queria passar uma certa mensagem, descuidadoso com a forma que a passaria, ficou muito evidente. Ou, também, que percebeu que o filme ficaria cansativo se fosse mais longo e fez aquela conclusão rapidinha que você pisca os olhos e os créditos já estão rolando. Lamentável. No mais, é um filme legal para refletir sobre a encheção de saco em cima da vida/escolha sexual alheia e, como o próprio título em francês sugere através de uma expressão que temos também na nossa língua nativa: gosto não se discute.

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