Em determinado momento de Green Book: O Guia, ao referir-se ao Dr. Don Shirley (Mahershala Ali) uma personagem diz que “ser um gênio não é suficiente. É necessário coragem para mudar o coração das pessoas”. O novo filme de Peter Farrelly, conhecido por suas comédias rasgadas como “Debi & Lóide”  e “Quem Vai Ficar com Mary?”, chega com 5 indicações ao Oscar e uma relevante discussão sobre racismo, coragem e os caminhos que alguém deve percorrer para superar seus preconceitos.

Baseado em uma história real, o longa é centrado na viagem feita por Tony “Lip” Vallelonga (Viggo Mortensen), um racista machão italiano, que, como motorista, deve conduzir o esnobe e talentosíssimo pianista clássico Dr. Don Shirley (Ali), em turnê pelo sul dos Estados Unidos. Só há um “probleminha”: Shirley é negro e estamos em pleno Estados Unidos segregacionista de 1962. Munido de um guia de viagem para conduzir passageiros negros com segurança (o tal livro verde do título), Tony será obrigado a perceber que o mundo é bem maior que seus preconceitos, ao mesmo tempo em que Don aprenderá com o desbocado Lip o valor da amizade.

Com um ritmo maravilhosamente bem orquestrado através de uma edição primorosa e vibrante e apoiado por uma fotografia muito forte, que destaca os espaços como mais que apenas locações, a estrutura de road movie do longa funciona muito bem. A viagem se metaforiza em imagem do despertar da amizade e da consciência das duas personagens.

Aliás, são as duas personagens que seguram o melhor do filme. Green Book há de ser lembrado como um daqueles casos em que o Universo (e um excelente diretor de casting) conjura uma dupla de atores que parecem ter nascido para interpretar aquelas pessoas. Viggo Mortensen domina cada uma das cenas em que seu Tony aparece. É incrível a versatilidade de recursos que ele exibe. Mahershala Ali, já sentindo o gostinho do 2º Oscar de ator coadjuvante que, provavelmente, virá, esculpe o seu pianista com uma profundidade que emociona a cada cena. Simplesmente a definição de química entre atores.

O interessante roteiro também inova ao mostrar uma visão bastante crítica do racismo e dos Estados Unidos, encarando os conflitos raciais também na essência das relações de classe. Por exemplo, um dos momentos mais bonitos se dá na demonstração de vulnerabilidade emocional de Don Shirley ao dar-se conta que, por ser bem-sucedido econômica e profissionalmente, ele não consegue encontrar aceitação nem entre os negros, nem entre os brancos.

No entanto, o mesmo roteiro que exibe essa consciência mais arguta não consegue escapar de uma armadilha comum aos filmes que tratam do tema. Em vários momentos, a produção, visando a dar conta do conflito narrativo, deixa transparecer uma certa “ingenuidade” e ate mesmo uma “facilitação” na construção da trama. Por vezes, a sensação que fica é a de que, ainda que não se valha de um deus ex-machina, algumas cenas são “forçadas” para garantir o equilíbrio confortável que uma “dramédia” costuma oferecer a seus espectadores. Talvez essa sensação ganhe força quando lembramos que, na mesma temporada, o outro filme a abordar a questão e, sem nenhum tipo de concessão palatável, é o “Infiltrado na Klan“, de Spike Lee.

Mas, no fim, o que fica de Green Book – o Guia é um filme que, como o bom cinema faz, abraça e leva a refletir. Ele aponta para a nossa humanidade e faz ressoar as palavras da grandiosa Maya Angelou: “Eu me recuso a permitir que quaisquer diferenças provocadas pelo homem me separem de quaisquer outros seres humanos.”

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