Desde fins do século XX eu assisto a boa parte dos filmes de nerd com o mesmo grupo de amigos. Vimos “Matrix” e saímos do cinema em silêncio tentando entender a profundidade daquilo. Fantasiamo-nos na pré-estréia de “A Ameaça Fantasma”. Deixamos para trás nossas familias à meia noite do dia 31 de Dezembro de 2001 para visitarmos as minas de Moria juntos e repetimos a tradição nas duas festas de Ano Novo que se seguiram.

A gente se conhece bem e gosta das mesmas coisas. Lemos os mesmos gibis, jogamos os mesmos RPGs e o fazemos há tanto tempo que já é esperada a reação de cada um de nós. Ontem, Sábado, dia 16 de Dezembro de 2017, teria sido igual ao assistirmos Os Últimos Jedi, o oitavo episódio da minha obra cinematográfica favorita. Boa parte do grupo curtiu, com uma ou outra ressalva, um deles, o que leu todos os livros do universo expandido e vinha carregado de expectativas, visivelmente tinha ficado decepcionado com o que assistira. Eu, como esperado, gostei. Muito. De verdade mesmo. Pra caralho. Até aí, nada de novo. Por isso mesmo eu disse “teria sido igual” pois boa parte das reações foi como esperado com exceção de uma: eu me surpreendi!

Eu sei que eu vou gostar de todos os filmes da saga (é saga e não franquia, atentemos à diferença, por favor), mesmo que eu saiba que ele não vai figurar entre os melhores do ano (talvez maiores bilheterias?), mas pela primeira vez desde “O Império Contra Ataca” um filme da série me pegou pelo pé. Nada do que eu esperava que acontecesse de fato aconteceu, e, honestamente, eu adorei. Cada vez que Rian Johnson (direção e roteiro) e Mickey Mouse (dinheiro em geral) me jogavam uma bola curva eu sentia os pelos do meu braço arrepiarem. Por que, honestamente, o que mais me decepcionou em todas as Prequels da série foi a falta de surpresas reais. Dessas que deixam a gente pensando “De onde saiu isso?”. E ao sair do cinema tudo o que eu pensava era “high five, Mickey”.

O filme é mais um balaio de gato muitíssimo bem sucedido. E, convenhamos, balaio de gato é o que faz com que Guerra nas Estrelas seja Guerra nas Estrelas. A gente quer ver mais daquela galáxia. Mais personagens adoráveis e sem profundidade nenhuma, mais lugares do caralho, mais criaturas bacaninhas, mais naves espaciais que nos fazem querer correr pra uma loja de brinquedo, mais desrespeito às leis da física (e ao manual de roteiro de Syd Field/Barret/Vicious, não importa, Robert McKee é melhor de qualquer maneira). Ao menos, é o que EU quero ver. E esse episódio trouxe isso em doses cavalares, sabendo medir com bom gosto ímpar as referências que todos queremos que estejam lá com novos elementos que nos façam sentir que aprendemos um pouco mais sobre nossa galáxia favorita.

Não apenas isso, Episódio VIII traz elementos novos (diria eu, inéditos?) para a saga, sem que com isso percamos a sensação de estarmos imersos naquela mesmo conto-de-fadas com o qual crescemos. Ela introduz discussões políticas e sociais, coisa que honestamente me surpreendeu, há pequenas participações de personagens coadjuvantes que alteram completamente a direção da história, tirando o peso dos ombros dos protagonistas e mostrando que há, também, unsung heroes nas guerras estelares.

Há mortes. Bastante mortes, em especial de pessoas pelas quais torcemos. Há uma quantidade inesperada de violência (não espere que este seja um Star Westeros, o filme é PG-13) e vários temas são bastante adultos para a média de Star Wars, mas há também os alívios cômicos e as cenas leves e simplesmente bonitas. Há crepúsculo de sóis gêmeos, selinho inesperado, referência a 007 e a Bruce Lee (ou a “Kill Bill”, como você preferir), Benicio Del Toro bêbado e gago, bichinhos fofinhos que serão sucesso de vendas no Natal. Tá, eu sei que Porg é estratégia de marketing barata pra atrair o público infantil, como corrida de Pod e Jar Jar Binks também foram (ou Ewoks antes deles). Da mesma forma que o decote de Scarlett Johansson em qualquer filme da Marvel (ou as longas cenas de sexo explícito em “Azul é a Cor Mais Quente”) só estão ali pra atrair marmanjos (ou marmanjas). E daí? É legal! Por que não tem uma cadeira chamada “É Legal” nos cursos de cinema?

Image result for porg gif

No meu quesito preferido – Alegoria e Adereços – o filme é um espetáculo pros olhos. A fotografia é primorosa e eu quase acreditei que não havia CGI e sim modelos e cenários reais. Talvez até fosse o caso, vai saber. Com raras exceções de sequências escuras e chatinhas de se acompanhar (coisa que parece ser cláusula obrigatória em todos os contratos de direção desde “Os Vingadores – Era de Ultron”), a luz é linda e de um bom gosto raro em filmes de ação/aventura/ficção. Os cenários são reais o bastante pra que acreditemos que eles de fato existem, mas alienígenas o bastante pra que jamais duvidemos que já não estamos mais no Kansas. Naves, andadores, speeders, armas, tudo me agradou. Os painéis dos cockpits parecem analógicos e realmente condizentes com veículos de combate, como eram os do primeiro “Guerra nas Estrelas” em 77, o design das novas naves são belíssimos (alguns exageros, mas, fala a verdade, fã de Guerra nas Estrelas adora ficar comparando tamanho de Star Cruiser), os andadores AT-M6 parecem uma versão brucutu dos amados AT-AT, e são muito fodas de se ver marchando. As lutas de sabre de luz, os combates aéreos são divertidíssimos, os stunts que Poe Dameron realiza com seu X-Wing fazem jus ao título de “melhor piloto da Resistência” e a Millenium Falcon chegando pra, mais uma vez, salvar o dia num Deus Ex Machina me deixou especialmente feliz.

Quanto à história e aos personagens, tá tudo lá. Só que não como você imaginava. E acredite em mim, isso é bom. Há novos pontos de vista filosóficos sobre a Força, e esse foi o ponto alto do filme pra mim. Há novos heróis juntando-se à Resistência, o retorno de velhos companheiros (seu camarada aqui teve os olhos marejados), e saudade de Peter Mayhew que não interpreta mais nosso querido Chewbacca devido aos seus 73 anos. Se você espera que algum médium da Disney tenha lido seus pensamentos e incluído cada uma das suas teorias e fantasias sobre quem deveria ser esse ou aquele personagem, ou qual a explicação lógica pra isso ou aquilo, então prepare-se. O filme tem muito pouco fan service. Mais uma surpresa pra mim. Depois de tantas especulações esperava encontrar mais obviedades e não, não estão lá. Mais um ponto pra Disney.

Tá, você não vai encontrar nenhuma atuação merecedora de oscar, nenhum plot twist digno de nota, nenhuma cena e nenhum dialogo será analisado em um curso de roteiro. Mas era isso que você esperava? Sério? Vamos mesmo sentar no escuro do cinema com nosso moleskine e dissecar cada detalhe de um filme de aventura que imita clássicos B de drive-in dos anos 50? Se é isso que você pretende fazer, prepare-se pra se frustrar. E muito. Todos os quesitos tecnicos que fazem com que um filme seja descrito com palavras eruditas não estão lá. E a essa altura do campeonato eu acho que de propósito. O desenrolar rocambolesco e as atuações/diálogos rasos me parecem deliberados e calculados. É assim desde o primeiro filme. Lucas dirigia Harrison Ford dizendo “Perfeito, agora faz a mesma coisa, só que mais rápido”. Faz parte da mistica do filme e honestamente? Por que não? Por que todo filme precisa do crivo dos universitários?

Então, sejamos honestos um com o outro. Vá ao cinema esperando sair daquela sala escura com um sorriso nos olhos, entrar no seu Peugeot 206, dizer hit it Chewie e engatar a primeira achando que está saltando à velocidade da luz. O filme se encerra, como é de se esperar, com uma homenagem merecida à nossa eterna princesa Carrie Fisher e a certeza de que não há cena escondida depois dos letreiros. Amem. Eu sei que o nome oficial agora é Star Wars em todos os cantos do mundo, mas eu fiquei feliz de saber que o meu querido Guerra nas Estrelas ainda está lá, firme e forte.

Vá assistir de coração aberto e sem expectativas e permita-se ser criança de novo (se é que você ainda não o é).

May the force be with you.

Sugestões para você: