“Os tifos e os cisnes vêm do mesmo lugar”, diz o Dr. Hannibal Lecter, em uma fala retirada do livro de seu criador, Thomas Harris, e que vemos presente em um dos 13 episódios da primeira temporada desta impecável série produzida pela NBC, “Hannibal”. As implicações desta simples fala são enormes, e parece que esta é a principal aceitação deste complexo personagem, que foge a qualquer denominação ou qualificação que possam dar a ele. Como não lembrar do diálogo presente no filme de Jonathan Demme, “O Silêncio dos Inocentes”, em que um guarda pergunta à Clarice Starling se era verdade o que andavam dizendo sobre o Dr. Lecter? Poderia ser ele um vampiro? A isto a personagem de Clarice Starling simplesmente (e sabiamente) responde: “Eles não têm um nome para o que ele é”.

Seu próprio nome é um indicativo da natureza complexa deste personagem; Hannibal é o mesmo nome do General de Cartago que travou guerra contra Roma no século II A.C, um General austero e determinado que cruzou os Alpes com elefantes e exércitos, movido por um ódio incutido nele por seu pai, para enfrentar um outro poder que se desenvolvia no mediterrâneo, a República Romana.E o que era Aníbal para os romanos senão um bárbaro, um selvagem? Hannibal como representação de uma natureza livre e selvagem, violenta, repleta de força e que se alimenta de corpos, de vidas. Por outro lado, seu sobrenome nos dá o indicativo de outra faceta de sua personalidade; o termo Lecter tem suas origens no latim e quer dizer Leitor.

O bárbaro leitor, o selvagem culto, a besta sábia, o assassino letrado. É essa dicotomia que marca o personagem de ponta a ponta. Dicotomia essa representada por vários indícios. Por exemplo, sua altamente desenvolvida capacidade olfativa, tão característica de predadores ou bestas feras. Sua necessidade de comer a carne de suas vítimas, como um ato de total dominação. De uma parte, vemos sua extrema cultura, inteligência, refino, bom gosto para as artes, as letras, a filosofia, e claro, sua renomada carreira como brilhante psiquiatra. De outro lado, vemos sua sede de dominar, de matar, sua atração pelo que sofre e o que faz sofrer. Seriam estas duas facetas mutuamente exclusivas? Os cisnes teriam vindo de um lugar, ao passo que os tifos de outro?

O Dr. Hannibal Lecter parece nos dar as respostas ao longo de toda a primeira temporada. Lecter cria relações próximas com certos pacientes. Nestes pacientes, o Dr. Lecter “cheira” a presença de algo. Este algo não é aqui motivo de discussão, e podem chamá-lo do que quiserem; desde o “mal”, demônios, distúrbio de personalidade, loucura ou até mesmo genes específicos que nos levam a matar (apenas diferentes perspectivas de um mesmo fenômeno). O fato é que o Dr. Lecter o pressente, sente que há algo naquela pessoa. Muito por conta dele próprio possuir isto (aqui é seu lado bárbaro falando, instinto compartilhado e de fácil reconhecimento pra ele).

Porém, o Dr. Lecter só poderá chegar à conclusão de que estava certo aplicando sua influência psicológica muitas vezes imperceptível para o paciente, através de uma manipulação que faz o paciente se descobrir, ou, se afirmar como Cisne e tifo simultaneamente, tal como o próprio Hannibal Lecter se afirma. E para isto o bom Doutor faz uso de seu lado culto, refinado, ancorado em descobertas no campo da psicologia e da psiquiatria. É exatamente isto o que vemos na relação entre Hannibal e Will Graham.

Quando Hannibal foi convidado pelo FBI para trabalhar ao lado de Will na captura de um serial killer, Garret Jacob Hobbs, a primeira pergunta que Hannibal se faz (eu presumo) é: “Como pode alguém que não é um assassino pensar como um assassino a ponto de desvendar a mente do próprio assassino? Ou seria ele também um assassino?”. É neste momento que Will entra no radar de Lecter como objeto de dúvida e de experimentação. Hannibal quer mostrar pra si e para o mundo que existe um tifo no cisne, e um cisne no tifo, que ambos são a mesma coisa e possuem a mesma origem.

É este o fio condutor através do qual toda a trama se desenvolve. Outra personagem importante e cujo destino na série suporta toda esta idéia é Abigail Hobbs. Hannibal, ao contrário de Will, não precisa de muitos dados para entender que havia muito de Garret Jacob Hobbs em sua filha, que Abigail também era uma assassina. Abigail dá a Hannibal todas as evidências, que ele interpreta rapidamente e com perfeição. Porém, com Will Graham, não é assim. Todas as conversas que Hannibal tem com Will nas sessões em seu gabinete apontam pra mesma direção.

Mostrar a Will que ele se sentia bem por ter matado Garret Jacob Hobbs, mostrar a Will que somente um assassino pode experimentar prazer e poder ao tirar uma vida, sentimentos estes experimentados por Will ao abater Hobbs. Vemos isso de forma delicada quando Hannibal conta a Will sobre o desabamento do teto de uma igreja na cabeça de 36 velhinhas que cantavam um hino especial para Deus. “Deus se sentiu bem ao fazer isso?”, pergunta Will. Hannibal responde: “Claro, Ele se sentiu poderoso”. Hannibal quer dizer que Deus dá e tira vida ao Seu bel prazer, guiado por Seus caprichos e crueldades, e mesmo assim, Ele é chamado de Deus, não há nada de ruim nisso. “Deus é maravilhoso! Matar deve fazer bem a Deus também, Ele faz isto a todo momento.

E não fomos criados à sua imagem e semelhança?”, completa ironicamente e acertadamente o Doutor. Todas as artimanhas que Hannibal realiza ao longo da primeira temporada para confundir Will (ou seria para fazê-lo renascer, se afirmar?) têm como objetivo mostrar a Will que ele não pegara Hobbs por sorte ou porque entrara fundo na mente de Hobbs por sua grande inteligência e imaginação, através de sua empatia, mas sim porque Will era um assassino, pois só um assassino pensa e age como um assassino. As sessões de terapia, as hipnoses sob efeitos de fármacos, a manipulação de evidências que apontariam pra Will como um assassino, tudo o que Hannibal arma contra Will é como uma grande experiência manipulativa motivada pela curiosidade do Bom Doutor.

Hannibal fez com que todos (sociedade, Justiça, FBI) dissessem a Will que ele era culpado por vários assassinatos, inclusive o de Abigail Hobbs, a quem seu pai pretendia matar e não matou; Will completaria assim a obra inacabada de Garret Hobbs, com quem ele tanto teve que se identificar. Sem dúvida, um tratamento de choque para mostrar apenas um ponto. A primeira temporada termina com Will preso acusado por vários crimes que não havia cometido. Na cabeça de Lecter, Will havia matado Garret Hobbs e pego vários outros assassinos porque Will é um assassino. Este é o ponto de Lecter. Para que Will entendesse este ponto, apenas este ponto, ele precisa sofrer as dores do parto, ele precisa renascer como um Will auto afirmado como Cisne e Tifo.

É esta, na minha visão, a representação do alce nas visões e inconsciente de Will. O alce representa uma associação inconsciente que a mente de Will faz da presença de algo sombrio no ar, da presença de algo que está perto, de algo que cresce e se desenvolve com ele, nele próprio, mas que o próprio Will não sabe o que é. No final da primeira temporada, o alce se transforma na figura de um monstro negro com chifres, a representação do próprio Dr. Lecter. O Cisne se transforma em Tifo, e Will Graham está pronto pra renascer, afirmando estes dois lados dentro de si, como Lecter fez em algum momento de seu passado. Mas para isso ele precisa sofrer. Ele precisa dar espaço do cisne para o tifo, sem que os dois se anulem.

O que o bom Doutor quer nos passar é que podemos ser muito mais complexos e sofisticados do que meras simplificações abstratas como anjos ou demônios, seres do “bem” ou do “mal”, que podemos ser algo muito mais criador e destruidor do que qualquer coisa imaginada pela mente do homem. Lecter nos mostra a Grandeza do tipo Homem. Seria Lecter um Homem Antigo? Seu primeiro nome, Hannibal ou Aníbal, está ligado à história romana, bem como seu sobrenome. Fico me perguntando se nos tempos de Roma, onde a neurose era inexistente (segundo o próprio Dr. Sigmund Freud), personagens como Hannibal eram mais comuns do que nos dias atuais.

Não vamos nos esquecer do grande orador, filósofo e esteta Cícero, que ao final das Catilinárias, ordenou que os culpados fossem decapitados em sua frente. E nem mesmo do Gênio do Divino Júlio, que figura ao lado de Hitler e Stálin, como um dos maiores genocidas da história da humanidade. Tifos e cisnes? Não, pois os dois vêm do mesmo lugar, e este lugar chama-se natureza humana! Os tifos e os cisnes somos nós….. Thank you, Dr. Lecter! Para finalizar, gostaria de ressaltar a brilhante interpretação e figura de Mads Mikkelsen, que a partir de agora estará associado ao nome do Dr. Lecter, bem como o também brilhante Anthony Hopkins.

“Imagino que o que vê e aprende toca todo o resto em sua mente. Seus valores e juízos estão presentes, embora se choquem com suas associações, horrorizando-o em seus sonhos. Nenhum forte na arena do seu crânio para o que você ama.” (Dr. Hannibal Lecter)

por Leonardo da Cunha

Sugestões para você: