Eu tenho 36 anos de idade, sendo que, pelo menos, 32 foram jogando videogame insanamente em frente à TV indo desde o meu Atari, passando por diversos consoles e PCs, até chegar ao meus PC e PS4 nos dias de hoje. Durante essas mais de 3 décadas acompanhei o crescimento e amadurecimento dessa indústria que hoje em dia movimenta mais dinheiro do que o próprio Cinema e que ocupa no meu coração (e tempo) um lugar de destaque, ao ponto de estar escrevendo isso agora pensando em voltar logo a jogar. Esse meu histórico com games é tão intenso, que a estreia de Hi Score Girl abalou meu coração e me levou num passeio ao passado repleto de nostalgia.

É importante falar aqui que, caso você nunca tenha jogado videogame, especialmente os jogos de luta da década de 1990, prepare-se para ficar completamente perdido. Esse é um anime muito direcionado e que requer conhecimento prévio razoável para apreciação da obra. Essa é uma verdadeira ode aos clássicos, como Street Fighter II, Splatterhouse, Final Fight, Golden Axe, Fatal Fury, Virtua Fighter, Mortal Kombat e Samurai Showdown e, caso você não conheça metade desses jogos, melhor nem começar o 1o episódio (mas acaba de ler a crítica).

Outra ressalva a ser feita é quanto a dublagem e localização. É muito mais prazeroso assistir com a dublagem brasileira, que nitidamente contou com um gamer em sua equipe. Nomes e gírias da época – como falar Gilette, Pilão e Tiger Robocop em Street Fighter – são constantes e te dão aquela sensação de estar de fato conversando com alguém que vivia nos fliperamas durante os anos 90, embora termos como fake news e noob, muito recentes, estejam lá também.

Essencialmente o anime se baseia na vida de um personagem, Haruo, e a sua relação com duas meninas (por isso o nome do anime) bem distintas, a Hidaka e a Oono. Ele é uma daqueles típicos alunos do 6o ano que assim que acabavam as aulas corria para o fliperama mais perto e lá ficava até fechar, gastando todo seu dinheiro e tempo livre na arte de aperfeiçoar suas técnicas gamers.  Haruo é um jogador de alto nível, daqueles que dominam a máquina enquanto diversas outras pessoas vão sendo eliminadas sempre que o desafiam. Pelo menos até Oono sentar ao seu lado e destruí-lo com Zangief – e uma cena divertidíssima – criando uma sequência de 28 partidas sem perder e fazendo o mundo de Haruo colapsar.

Dessa humilhação (na cabeça dele), surge uma admiração e amizade que vai marcar a vida dos dois por muitos anos, até o fim do ensino médio. Mas em meio a isso, surge Hidaka, uma menina noob que começa a jogar por influência de Haruo, desenvolvendo seu potencial ao longo dos anos ao ponto de chegar ao seu nível, criando um triângulo de amoroso e de amizade, permeado por jogos, comovente e fofinho que eu shippei demais.

Hi Score Girl é quase um documentário sobre a evolução dos jogos e consoles, passando por uma época de intensas mudanças no cenário. Por exemplo, caso você fosse um jogador “profissional” – de ir à torneios, já que não dava para viver disso nos anos 90 – sua vida se dava dentro de mercadinhos ou lojas de doce com um flipper no canto, isso até os consoles começarem a ganhar poder de processamento, mas que, sem a internet ainda, só possibilitava jogar contra a máquina ou algum amigo ao seu lado, te fazendo perder contato com os melhores jogadores do seu bairro. Além disso, o anime resvala no eterno machismo presente na comunidade gamer até os dias de hoje e, embora não tenham aprofundado muito na questão, foi interessante ver que os dois melhores jogadores eram duas meninas com posturas e competências bem distintas.

Fora o seu tom cômico e cenas com eventos nostálgicos – como jogar contra aquelas pessoas que saem apertando aleatoriamente os botões em jogos de luta e acabam fazendo alguns golpes especiais por pura sorte, não é, caro editor-chefe? (Nota do Editor: você vá tomar no meio do olho do seu cu!) -, o anime apresenta alguns problemas. Disparado, o pior deles é a animação 3D. Que escolha infeliz. Mesmo com um ritmo que não exigia muito da animação, tendo boa parte de suas cenas com vídeos de gameplay reais, ver os 3 se movendo que nem um boneco de posto era brochante e tirava parte de imersão/atmosfera tão belamente criadas. Seu direcionamento muito específico também dificultará a vida de quem não joga e não consigo imaginar uma pessoa que gaste menos de 20h semanais jogando se interessando pela obra. Diferente de um outro belo anime que foi disponibilizado pela NETFLIX recentemente, o “Forest of Piano“, focado em música clássica, que, também apresentando uma temática restrita, consegue funcionar até para o seu tiozão churrasqueiro+pagodeiro.

Levando em consideração que eu tinha a mesma idade dos personagens e passei essencialmente pela mesma evolução no mundo dos jogos, Hi Score Girl me tocou à um nível além do crítico, acertando no âmago de uma das minhas maiores paixões. Contudo, babaquinha que sou, digo que aqui há mais acertos que erros, mas para um público geral e leigo, fique com algo menos direcionado. PORÉM… caso você queira começar a explorar esse maravilhoso mundo, vá nessa com moderação.

Sugestões para você: