Godard está para o Cinema como São Mateus está para o Cristianismo. É um autor sacro. Um evangelista. Ele iluminou toda uma geração em brasas numa ebulição corrosiva e saltitante. A Nouvelle Vague era o auge da pretensiosidade artística, de uma ambição sincera e juvenil de mudar o globo a partir da arte e da estrutura narrativa. Godard e Truffaut não soterraram o Cinema narrativo, muito menos o proletariado venceu a burguesia, mas aquela esperança permanece intacta como a rosa da mais brilhante primavera. Com 88 anos de estrada nas costas, Jean-Luc deixa óbvio que o Cinema de arte está no passado e sua obra de hoje se destina a um público restrito a um indivíduo: ele mesmo.

Apenas Godard pode desvendar Godard. Imagem e Palavra é a evidência mais nítida e cabal de um processo de mumificação do vivo. A colagem de pouco menos de hora e meia é um esotérico, hermético e intrigante experimento no qual o cineasta franco-suíço arremessa questões acerca da modernidade, do tempo, do secularismo, da arte e do islamismo, todas embaladas em sarcófagos impenetráveis como a própria pirâmide em que Godard se enfiou.

Enquanto filme-tese é inacessível, enquanto entretenimento é inassistível, todavia ainda sim Imagem e Palavra consegue ser um monstro Frankenstein sedutor na medida que reflete justamente a dualidade e as contradições de um autor que sempre se propôs a imperfeição. Existem ali reflexões sinceras, de um artista que parece perdido nas ramificações do tempo. Se “Adeus a Linguagem”, de 2014, é a última facada que Godard desfere no cinema narrativo, resta a Imagem e Palavra a função de um pós-cinema inacabado, onde o movimento bergsoniano nunca fecunda o tempo.

Talvez a última estalactite da caverna godariana, Imagem e Palavra é a síntese de uma obra destrutiva e criativa que arrastou as estruturas para uma vala, mas no fim tem como seu maior legado a incompletude. A palavra que não se conecta, o carro que se incendeia a um palmo do fim da estrada e a revolução que nunca chegou. O Cinema de Godard é essencialmente sobre a morte do que foi e a falha do que deveria ter sido. Em suma, só nos prova que nos evangelhos do Cinema existe mais humanidade que iluminação.

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