Baseado no jogo para celular Ingress Prime – confira o trailer abaixo caso você nunca tenha escutado a respeito -, Ingress: The Animation chega ao catálogo da NETFLIX com olhares suspeitos de que possa ser uma gigantesca propaganda potencialmente ruim com intuito de tornar o game um “Pokemon Go” da vida. E cá estou após 11 episódios para dizer que não baixarei o jogo, mas certamente verei uma possível 2a temporada

Vamos logo tirar do caminho a primeira coisa que salta ao olhos já na cena de abertura: o uso de uma animação 3D MEDONHA. Mais uma vez temos essa técnica sendo empregada do início ao fim na produção de um anime, imagino eu, por dois propósitos. O 1o e mais óbvio, a redução de custos e tempo. Considerando que a obra existe para vender um produto, faz sentido essa escolha, afinal, animes como o excelente e queridinho da galera que curte animação japonesa no site, “DEVILMAN Crybaby“, buscam conceitos artísticos para expandir o potencial da mídia e se destacar nesse meio saturado e esse não é o caso aqui. Em 2o lugar, a animação 3D dialoga com o visual do aplicativo, que utiliza efeitos de flashes, ondas magnéticas brilhantes e fluidas que seriam bem difíceis de realizar em uma animação 2D clássica. Contudo, ainda sou obrigado a fazer a redundante ressalva de como o 3D em animes ainda está longe de conseguir algo agradável e, no caso em questão, fez um enorme desfavor a uma história interessante e repleta de ação, depreciando consideravelmente o produto final.

Ainda dentro da questão técnica, a trilha sonora é destaque absoluto. Desde a abertura, passando por uma variedade de tons e temas em cenas diferentes, e chegando ao encerramento, a competência do time responsável é inquestionável. Eles conseguiram criar imersão em diversos momentos emocionalmente carregados e salvaram as cenas de ação de um 3D que, se não tivesse trilha, me fariam rir de tão toscas que eram. Embora o jogo não esteja no meu celular, a trilha sonora já consta da minha biblioteca do Spotify.

“Mas como é o mundo de Ingress, Fields?” você pode estar se perguntando. Meu caro leitor MetaFictions, ele é uma loucura do caralho. Toda a história gira em torno da descoberta da ME (Matéria Exótica), uma partícula subatômica quântica que influencia os seres humanos desde que eles surgiram na Terra. Lutando pelo controle dos portais onde a ME se concentra temos duas facções, os Rebeldes, que acham a ME uma ameaça que precisa ser contida, e os Iluminados, que a acham necessária para evolução dos seres humanos. Essas facções possuem agentes que são sensitivos (no sentido de ser médium) e que são influenciados por essas partículas, despertando e aumentado seus atributos físicos e mentais. O domínio do portal por uma facção – daí a jogada de marketing – depende da gente, reles mortais, ao jogar Ingress Prime, já que a primeira coisa que fazemos ao logar no jogo é escolher uma das facções. A importância do domínio dos portais está na formação de campos de força que potencializa os agentes sensitivos do seu lado e enfraque os do outro. Confesso que achei uma boa jogada, mas não o suficiente para me fazer baixar o game.

Correndo por fora, uma terceira facção, os Colaboradores, encabeçada por um conglomerado corporativo chamado Hulong, pretende usar a ME de forma escusa e cabe a 2 agentes sensitivos, Makoto dos Iluminados e Jack dos Rebeldes, resgatarem Sarah, sensitiva fundamental para que os Colaboradores consigam dominar o mundo. Em suma, Ingress é uma mistura de “Matrix“, “Interestelar” e “Ghost in the Shell“, todas obras com características marcantes e que você encontrará no anime, não de forma remendada como o monstro de Frankenstein, mas, sim, muito bem costurada e apresentada. Isso já fica escancarado no episódio 1 na forma como Makoto é cooptado a ajudar na causa, recebendo informações em um celular de uma pessoa desconhecida, de agentes engravatados desviando de tiros com bullet time e na presença de todo um universo paralelo, quântico e de onde pode se enviar mensagens.

Porém, temos alguns probleminhas pela escolha de direcionamento de roteiro que foca unicamente na expansão de um universo. Os personagens são um tanto unidimensionais, tirando os 2 agentes que ficam passando por situações das mais diversas expandindo o lore das ME e o desenvolvimento da história da humanidade, além de serem muitos e alguns deles ficarem sem desenvolvimento algum. E mesmo sendo agradável o ritmo no qual isso é entregue, por serem diversas informações por episódio, a obra acaba por não explorá-las com competência, dando a impressão que o roteiro apenas estava interessado em justificar a religião por meio da ciência. Uma pena os personagens não serem profundos e cativantes o suficiente para nos importarmos com tudo que está acontecendo. Aliás, essa tentativa de ligar religião e ciência careceu de uma discussão sobre filosofia, ética e moralidade, mas conseguiu entregar uma explicação interessante e elegante de como alguns eventos místicos, inexplicáveis e religiosos podem ter base científica.

Com uma melhora drástica no seu terço final, com um plot twist que te pega desprevenido e que ressignifica muitos acontecimentos, Ingress: The Animation dá uma cutucada no poder corporativo com uma metalinguagem interessante, aponta para a manipulação midiática e mostra que visões diferentes não precisam ser opostas e mutuamente excludentes, podendo funcionar como uma maneira de encarar uma questão de forma complementar. Talvez seja uma das melhores propagandas que vi ultimamente.

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