Qualquer pessoa que tenha vivido tempo o bastante há de um dia se deparar com a noção de que o mundo já foi melhor. Aquela coisa de “no meu tempo…” Nossos avós falavam isso, nossos pais falam isso e eu me pego falando isso com mais freqüência do que eu gostaria de admitir. No entanto, até há poucas décadas, a nostalgia se limitava ao sabor da coca-cola de garrafa de vidro e aos verdadeiros jogadores de futebol que eram enterrados com a camisa do único time pra quem jogaram na vida. Hoje sinto-me nostálgico ao lembrar que os verões não eram tão insuportavelmente quentes no Rio de Janeiro, que o ar cheirava a maresia e clorofila e não fumaça de escapamento, ou que nadei com cavalos marinhos na Praia da Bica, na Ilha do Governador.

É, meu cumpadi, estamos fudendo com o planeta. Não há como negar. Se as mudanças climáticas são causadas por isso ou aquilo, se a camada de ozônio está ou não lá, se tudo vai ou não ficar bem, deixo a discussão pros flat earthers. O fato é que em troca de iPhones, Nespresso e enormes picapes pra compensarmos nossos paus pequenos, estamos cagando o único lugar onde podemos viver em todo o universo. Admiro Elon Musk tanto quanto qualquer fã de ficção científica, mas Marte está muito longe de ser o paraíso que nós ganhamos como lar.

Na ausência de hombridade real dentre os líderes do mundo e visto que a queda de braço paspalha entre a Ciência e insira aqui uma crença religiosa parece se restringir a uma disputa de egos, a ficção científica resolveu tomar para si o papel de criticar o desperdício que é o nosso estilo de vida. A arte imitava a vida, depois a vida imitou a arte, agora a arte tenta salvar a vida, um par de olhos de cada vez. Desde o magnífico “WALL·E ” (que figura em nosso Top 10 – Animações), toda uma geração de meninos e meninas fãs do Mickey passou a discutir o futuro do planeta. Sabe aquele papo de “como é o planeta que você quer deixar pros seus filhos?” Deixa pra lá, você é incapaz e muito provavelmente seus filhos salvarão o planeta sozinhos, e esperam apenas que você morra pra que assumam o controle e limpem a cagada que você fez. Ou essa é a esperança desses contadores de história. IO, lançamento do dia na Netflix, parece vir como uma dose de reforço da vacina de consciência que foi “WALL·E “.

IO (2019)

No filme, uma catástrofe ambiental alterou a composição química do ar, tornando-o tóxico e irrespirável, levando a humanidade a partir em centenas de naves para a lua IO de Júpiter, onde uma estação espacial armazena energia geotérmica e prepara uma missão de colonização para fora do sistema solar. Sam Walden (Margaret Qualley com um olhar melancólico e ao mesmo tempo esperançoso tão rasga-coração que parece ter saído de uma letra de Mazzy Star), é uma jovem cientista – um dos pouquíssimos seres humanos a permanecerem na Terra – que tenta desesperadamente encontrar provas de que a vida ainda é capaz de se adaptar ao planeta moribundo. Sam se achava sozinha nessa terra estéril, assolada por tempestades de amônia, quando um balão de hélio pousa em seu quintal. Como um personagem de Saint-Exupéry, seu tripulante, Micah (Anthony Mackie, o Sam Wilson/Falcon dos Vingadores), é um misterioso sobrevivente que procura por um famoso cientista, pai da moça. Tendo apenas alguns dias antes da partida da última nave para IO, Micah tenta convencê-la a deixar a Terra, enquanto que Sam revisita em ideias e pensamentos tudo o que há de belo, bom, e único aqui.

IO (2019)

O filme está longe de ser uma dessas ficções científicas de efeitos especiais, robôs e “raio-leizu”. Lento, silencioso e triste, ele tenta nos lembrar, sem mostrar quase que absolutamente nenhuma imagem que não seja cinza e fria, tudo aquilo que teríamos que abrir mão ao deixarmos a Terra em busca de outro lar. A tentativa é válida e muito bem-sucedida. Vi-me com o coração apertado ao descobrir que os últimos animais vivos são as abelhas que o pai de Sam estudava, em busca de uma forma de repolinizar o planeta. Senti-me culpado por toda a comida que já joguei no lixo ao ver o olhar faminto de Micah ao descobrir que Sam ainda cultivava legumes em sua estufa – a última comida fresca que um ser humano viria a comer.

Em seus curtíssimos e quase irretocáveis 1 hora e 36 minutos, com apenas três atores, dois cenários e sem quase nenhuma trilha sonora, o filme fala de esperança e amor no contraste entre cada raio de sol lindamente fotografado e cada cena escura e angustiante, em cada olhar silencioso interrompido por pouquíssimas e bem escolhidas palavras. Há, sim, certa dose de previsibilidade, mas mesmo essa soma à narrativa, à tentativa de Sam em se agarrar a um último resquício de esperança. Surpreendeu-me descobrir que o filme tenha uma nota de 5,5/10 no IMDB. Talvez a total ausência de violência, explosões e sexo explícito e a delicadeza das emoções humanas tenham deixado os flat earthers confusos e frustrados.

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