Das óperas de Ruggero Leoncavallo, apenas uma obteve êxito real e, ainda hoje, é celebrada. Ela se chama Pagliacci, “Palhaços”, e conta a trágica história de Canio, um palhaço que se descobre traído por sua amada Neda. Cego de amor e sua velha companheira de rima pobre, a dor, Canio embarcará em um enredo de desespero e sangue. Dos muitos filmes de Jim Carrey, “O Mundo de Andy” se tornou uma das mais aclamadas performances deste que é considerado um dos maiores comediantes de todos os tempos. Nele, Carrey (re)trouxe a vida o intenso e polêmico comediante Andy Kaufman. Jim & Andy, de Chris Smith, produzido pela Netflix, é um documentário que resgata as imagens inéditas (e perturbadoras) dos bastidores do filme de Milos Forman, intercaladas com uma entrevista de seu protagonista (o próprio Carrey), na qual ele relembra aquele período turbulento da sua vida. Tal como a ópera, amor, dor, sangue, desespero, arte e uma completa neblina na separação realidade/ficção.

O prólogo de Pagliacci termina com um lembrete à plateia de que os atores têm sentimentos e de que a apresentação é sobre pessoas reais. Jim & Andy começa com o entrevistador perguntando a Carrey como ele gostaria que aquele filme começasse. Jim responde que, se ele tivesse escolha, o filme não começaria, ele já teria começado e também não terminaria. Essa é a deixa para que o espectador seja apresentado às imagens do arquivo que, por praticamente vinte anos, ficaram guardadas. Elas vão mostrar um Jim Carrey que entra no set não para atuar, mas já “possuído” por Andy Kaufman e, às vezes, por Tony Clifton, o heterônimo malvado criado por Kaufman. Jim, para desespero, admiração e espanto da equipe é Andy Kaufman durante toda a filmagem.

O documentário se debruça, então, a tentar entender o porquê dessa transformação e responder, principalmente, à seguinte pergunta: “Por que um dos atores mais bem-sucedidos daquele período precisava escapar de si?”. Este é o grande trunfo da produção, dar ao espectador acesso a um Jim Carrey completamente desconhecido e fragilizado, alimentado e devorado pelo monstro da fama. O que presenciamos ali é um ator refletindo com muita angústia e total desarme sobre a sua história (inclusive com fatos muito íntimos sobre sua vida familiar e particular) e sobre o seu ofício e carreira. É, ao mesmo tempo, fascinante e aterrorizante ver o quanto a arte também pode ser um escudo para os nossos medos e fraquezas. É um close-up na arquitetura de um ator extremamente talentoso, lutando com seus demônios e com os demônios de sua personagem que, para aumentar o Inferno da metalinguagem, é uma pessoa que realmente existiu. A excelente edição do longa (e esse é um gênero no qual edição é realmente vital) potencializa a sua narratividade.

Por outro lado, a produção não escapa a deixar um gosto artificial em certos momentos, tanto dos arquivos quanto da entrevista de Carrey. Por vezes, o espectador é tomado pela dúvida de que a “possessão” foi real ou se era apenas mais um artifício de um ator extremamente talentoso, o que dá um tom interessante ao doc, embora também cause um certo cansaço ao longo da exibição. Ele fica mais instigante, porém, nos momentos em que o diretor consegue imprimir uma dúvida mais rica no filme: “e se foram as duas coisas? Um ator possuído por sua personagem e angústias E um comediante maravilhoso sentindo uma dor real e, simultaneamente, interpretando e rindo do seu papel?”.  O primeiro ato da ópera de Leoncavallo termina justamente com sua ária mais famosa, Vesti la giubba, cujos versos dizem: “Tu és palhaço/Vista a fantasia e pinte a cara/ As pessoas pagam, e querem rir/ Ria, palhaço, sobre o teu amor destroçado/ Ria da dor que te envenena o coração!”

Ao final de Pagliacci, Canio mata Neda e seu amante em pleno palco, onde estão travestidos de Arlequim, Pierrô e Colombina. Desolado, ele grita “La commedia è finita! – A comédia acabou!”. Ao final de Jim & Andy, tem-se vontade de gritar “La commedia è finita!”, mas, com uma piscadela num olho e uma lágrima no outro, acrescentar um “Será?”.

 

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