Nerds e geeks, uni-vos e tomai de volta o mundo que construístes!, celebra Jogador Nº 1, o principal lançamento da semana que vem com o pedigree assinado por ninguém menos que Steven Spielberg, diretor de tamanha importância para o Cinema que nós lançamos um Top 10 todinho seu essa semana. Tem gente que parece nascer com o dom de tocar qualquer coisa e transformar em ouro e, no cinema, seu nome é Spielberg. Em tempos recentes, já não mais um garoto, o diretor parece ter decidido dedicar sua carreira a filmes adultos, com temas profundos e sérios. Todos muito bem sucedidos e admiráveis. Mas, até umas duas décadas atrás, o diretor era o senhor absoluto do cinemão-pipoca da mais fina estirpe. E eu sentia falta desse cara e suas histórias. Sentia falta do menino Spielberg falando da cadeira de diretor, por trás dos Oscars. Mais ainda, sentia falta de quando esse cinema desavergonhadamente hollywoodiano não se desculpava por ser quem era e não decepcionava seus fãs. Houve, inclusive, uma época em que tal cinema causava sorrisos até mesmo naqueles que apelidaram esta forma de entretenimento de “a sétima arte”.

Ao assistir ao trailer de Jogador Nº 1 não entendi de primeira do que se tratava. Parecia um lançamento pra PS4, mas sem mostrar o gameplay. Seria uma animação? Assisti de novo e, ao perceber o que era – e de quem era -, eu pedi a Papai Noel: “Por favor, por favor, seja um daqueles!”. Papai Noel sabe a quais me referia e sabe a falta que esses filmes fazem na minha vida. Um dia a gente cresce e fica cético e cínico e chato pra caralho, cheio de referências babaquaras e citações medíocres, e é coagido a gostar de papo-cabeça pra poder paquerar a barista tatuada daquele café da moda. Mas, na boa, esse camarada aqui quer mesmo é se divertir naquela sala escura e acreditar por duas horas que o mundo não é uma bosta.

Meu nome é Wade Watts e eu sou o herói do filme. É, o filme tem herói. Não é anti-herói ou vilãozinho disfarçado pra gente fingir ser mais intelectual. 

Fui ao cinema hoje às quatro da tarde – matinê – cercado por crianças de cabelos grisalhos e daquele outro tipo lá também. Sessão sem aqueles óculos embaçados escrotos, como todo filme deveria ser. A luz se apagou ao som de Jump do Van Halen. Tela preta. Só tela preta. Fade-in, um guri numa favela com uma legenda: Columbus – Ohio – 2045. E após uma sequência dirigida com habilidade ímpar em que o próprio moleque – Wade Watts (Tye Sheridan) – nos descreve, em off, quem é ele e como é aquele mundo onde ele habita (quase aquela descrição que um bom DM faria no inicio de um jogo de D&D), Spielberg nos pega pelas mãozinhas e fala “senta que lá vem a história”. Eu apanhei meu copão de um litro de Coca-Cola e torci, aplaudi, ri e chorei como uma criança. Eu e todos os outros guris de todas as idades ao meu redor.

Vem dançar comigo, nerd. Eu sou gatinha, luto bagarai e tenho a moto do Kaneda.

Na “película” (tenho certeza que nenhum centímetro de película foi, de fato, maculado na feitura desse filme, mas chamo assim pra dar mais credibilidade junto aos pernósticos de plantão), o mundo foi pro caralho quando James Halliday (Mark Rylance), um “Steve Jobs” mucho loco (com direito a seu “Woz” e tudo o mais) cria um videogame de imersão total chamado O Oasis, e todas as pessoas do planeta passam a ficar mais tempo online que no mundo real (tipo… hoje em dia?), pagando suas contas com “coins” conseguidas dentro de gigantescos jogos de computador nos quais suas habilidades como jogador valem mais que um diploma.

Grande parte da população se perde em dívidas e enormes corporações lucram sem piedade com a desgraça do mundo. Mas Halliday – o Jobs como a gente gosta de acreditar que o Jobs era – pouco antes de morrer, esconde um easter egg em algum lugar do enorme universo do jogo e deixa sua fortuna e o controle total sobre o Oasis pra quem encontrá-lo.

Here’s to the crazy ones. The misfits. The rebels. The troublemakers. The round pegs in the square holes…

De olho no prêmio, o CEO calhorda de uma dessas grandes corporações (desses de pau pequenininho que precisa de dinheiro e de sua enorme cadeira de diretor pra se sentir viril) investe todos os seus recursos e contrata todos os melhores jogadores pra garantir controle sobre O Oasis. Enquanto isso, em seu pequeno pedaço de lugar nenhum, Wade Watts e seu grupo de amigos pobretões tentam vencer o jogo em nome do bem, da liberdade, da justiça e do amor. Em especial do amor por tudo o que é bonito nesse mundão nerd sem fronteiras (pós-globalização), de jogos, filmes, quadrinhos, músicas, fast food e tudo o que há de melhor nessa vida. O filme se esbalda em referências pop e celebra a cultura que permeia o mundo dos millenials (se você se tornou adulto por volta dos anos 2000 ou nasceu por volta dos anos 2000, você é um deles), sem com isso tornar-se “vazio” ou “raso”, como essa geração é rotulada pelos Baby Boomers (os de cabelos brancos nascidos depois da segunda guerra) e os Gen X (os que hoje têm a idade da Winona Ryder e do Johnny Depp, símbolos maiores dessa geração).

O CEO douchebag e seu capanga brucutu com um D20 nas mãos, sem saber como rolá-lo.

Baseado no best seller de Ernest Cline, autor do poema-viral “Dance Monkeys Dance” e habitante da minha saudosa Austin – Texas, o filme é recheado de easter eggs em quase todas as cenas, com uma espessa cobertura de referências de cultura pop e besuntado de calda de trilha sonora dos anos 80. Se você joga videogames (e eu não jogo desde Final Fantasy VII), o filme é uma grande homenagem a você, passado mais de 50% do tempo online, num MMORPG onde você pode ser o avatar que quiser.

Praticamente qualquer personagem de qualquer jogo que você possa imaginar está lá. Não apenas isso, tem Joan Jett, luta de Mecha, Kubrick, DeLorean e Rei Artur. Os easter eggs e referências pop são mais do que apenas algo bacaninha pra adoçar seus olhos nas eletrizantes cenas de ação. Eles são, de fato, a linha condutora da história e é nesse ponto que o filme brilha. Se você viu os mesmos filmes, leu os mesmos gibis, jogou os mesmos jogos e nerdou sobre as mesmas nerdices que eu, então os mistérios e enigmas propostos pelo filme parecem escolhidos a dedo pra você, permitindo maneiríssimos “ah-ha moments” em que você desvenda o que vai acontecer meio segundo antes daquilo aparecer na tela e você se dá um “high five” imaginário. Tudo isso coroado por aquele momento em que Spielberg magistralmente tira da cartola aquele detalhe que você deixa escapar (sem spoilers aqui).

“Jogo dos Sete Erros” ou “Onde Está Wally” versão gamer.

Mas o filme não é apenas videogame, referências e citações. O roteiro é um daqueles roteirões redondos das antigas, com vilão escroto, herói adorável, mocinha fofa (mas badass, porque não estamos mais em tempos de donzelas em perigo), história de amor, sequencias cliffhanger até o último segundo e mensagem feel good no final. Sim, amante do cinema-arte, tem cada um dos clichês hollywoodianos que você tanto odeia. Chupa. Só que não estou falando de um diretorzinho qualquer, com um roteirinho qualquer adaptado de qualquer livro. Tanto Spielberg quanto Cline, que assina a co-adaptação de seu livro para o cinema, não mijam na mão (piada que só aqueles que tiveram iMac G3 – o saudoso “Jujubinha” – entenderão).

O filme explora a relação estreita entre o real e o virtual, questão já levantada por Pierre Lévy, fala da corporativização do mundo, do acúmulo de lixo, do empobrecimento da classe média e de desigualdade social e má distribuição de renda. E, ao mesmo tempo que celebra a geração gamer, problematiza o distanciamento entre as pessoas no mundo real e a nossa crescente perda de contato com o que há sob o céu. A direção de arte, a cenografia, o design dos personagens (aqui os personagens precisam ter design, já que metade do filme é uma animação) e a trilha sonora são primorosos. A direção – diria eu o storytelling – é aquele Spielberg que aprendi a admirar desde o primário quando o E.T. levita as bicicletas das criancinhas com a lua cheia ao fundo fazendo meu coração explodir dentro do peito.

Valeu Steve. Valeu pra caralho. Pode encher o rabo de dinheiro que tu merece.

Sei que eu sou parcial e que eu simplesmente amo não apenas histórias de aventura – e essa está lá no topo da minha lista, junto com “De Volta Para o Futuro” e “Tron” – mas também nerdices e cultura pop, e por isso mesmo tentei procurar qualquer escorregão que o filme pudesse ter antes de dar minha nota. Só para evitar as acusações dos corksniffers de plantão. E na boa? Não achei. Nadica de nada. Nem as cenas deliberadamente feitas pra justificarem o preço do ingresso no Imax. Saí da sala do cinema com um sorriso no rosto como há muito não tinha. Com a alegria de quem revê um velho amigo que o lembra porque diabos você começou a gostar de filmes.

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