Em 2015 eu passava por um sebo – tenho tara por sebos e brechós, preciso de tratamento – e me deparei com um título de Stephen King: “Jogo Perigoso”. Confesso que tinha cara de ser um livro furreca, mas, como sou fã do autor, resolvi adquiri-lo. Como de costume punhetei o livro durante bons meses até terminar de ler, seguindo uma lamentável mania que tenho e que não diz muito do material e sim de mim. Terminei e gostei do que me foi dado; King investe numa escrita pesada, bizarra, tortuosa psicologicamente falando, beirando ao surto esquizofrênico – do autor, talvez, projetado na personagem. A grande sacada do livro é fazer com que os monstros que vivem dentro do ser humano aflorem. Às vezes o inimigo é o espelho.

No filme baseado na obra do escritor temos a preservação de alguns aspectos que compõem a essência da narrativa. Na história, Gerald (Bruce Greenwood, muito bem enxuto por sinal) e Jessie (Carla Gugino, uma peça firme) viajam para um lugar distante no meio do nada em busca de salvar seu casamento. A cena inicial já nos diz o que vai acontecer: o casal arruma uma pequena mala levando poucas vestimentas e Gerald tem na sua dois pares de algemas entre os itens “básicos”. Sabemos, então, que tal joguinho sexual é a esperança dos dois rebobinarem à uma relação saudável.

Eu não costumo ficar na incessante comparação entre livro vs. filme, mas senti falta de elementos que contextualizam a relação entre os dois. No filme, vemos um casal bem, Jessie é doce e paciente e o clima de crise é muito brando. Já no livro a personagem claramente despreza o marido logo de início, de forma que até o seu sorrisinho e tom de voz lhe dão embrulho no estômago. A importância de mostrar essa relação já inexistente, mas maquiada pela comodidade do casamento, será explicada mais a seguir.

Quando os dois estão já perto do rala e rola, Gerald toma sua azulzinha pra ficar no esquema e prende Jessie. Tudo parece que correrá bem (dentro das próprias proporções) até que o cara tem um ataque cardíaco e bum, morre. E é exatamente aí que o filme começa para valer: e agora? Ela está sozinha num casarão, sem vizinhos, sem telefone à alcance e com o marido estirado no chão. Acorrentada. E as correntes não se limitam àquela cabeceira; Jessie tem que lidar com outras questões que a mantêm estagnada, e é no ócio que elas a invadem…

Estresse, desidratação, adrenalina, cãibra. São todos elementos físicos mas que estão longe de gerarem apenas danos corporais. A mulher começa a alucinar e ser conduzida por seu inconsciente, inclusive por pensamentos há muito adormecidos. Traumas de infância à revisitam personificados pelo pai; o marido também é outra voz que lhe sussura ao ouvido, desagradável; e ela mesma, vestindo uma persona idealizada, aparece como fantasma para aconselho. No livro esses fantasmas são ainda mais plurais: Ruth, uma amiga de infância e Nora, sua psicóloga, fazem parte dessa alucinação. Entre estímulos, desestímulos e reflexões melancólicas, aquelas vozes vão guiando a personagem rumo à salvação e loucura.

Quando li o livro o que mais me marcou foi a seguinte frase, dita por Gerald: “O que é uma mulher? Um sistema vivo para o apoio de uma boceta”. O pensamento asqueroso de que uma mulher é limitada à sua capacidade de reproduzir e dar prazer ao homem ficou na minha cabeça. King se apropria desse infeliz jeito de pensar e o insere em Gerald, ao passo que investe em longas páginas que espetam com acidez a visão masculina sobre a mulher. Dentro desse contexto, no livro podemos conhecer melhor o cara, Jessie e a relação dos dois. Já no filme, muito pela inviabilidade de detalhar da mesma forma, a construção dos personagens é mais superficial.

Por fim, Jogo Perigoso é um filme ousado, mas não pela temática. O fato de se dispor a contar uma história que se passa em apenas um quarto, e que é construída a base de extensos monólogos ou diálogos com fantasmas é um desafio. As chances de dar errado no audiovisual, por simplesmente não ser fácil de passar para essa linguagem, eram imensas. Eu sinceramente esperava uma merda. O sustento do livro está no longo escalonamento da trama pessoal de Jessie e no frequente desabrochar de novos elementos. No filme isso é mais simplificado, seja por pragmatismo ou inviabilidade, o que gera uma releitura e omissão bons trechos.

Ainda que eu tenha ficado particularmente incomodada com essa omissão, o filme tem uma boa condução de ritmo e suspense e é fiel a principal ideia do livro: os horrores que habitam no ser humano, em especial os mal digeridos. Neste sentido, vemos claramente a transição da personagem e suas questões: negação, dor e libertação. As etapas são alinhadas com o confinamento físico que vive. Um bom filme feito de um livro mais ou menos (mas que eu gosto, perdoem!).

Sugestões para você: