Há uns anos os irmãos Safdie, Josh e Benny, fizeram bastante estardalhaço com o frenético e excelente “Bom Comportamento”, no qual Robert Pattinson segue em uma jornada completamente despirocada na intenção de tirar seu irmão da cadeia e essa é uma sinopse absolutamente simplória do tanto que o filme tem a oferecer. O ponto é que aqui os Safdie estabeleciam uma identidade autoral muito bem marcada, daquele tipo que provavelmente vai acompanhá-los ao longo de toda a carreira e fará com que, daqui a uns 10 anos, a gente saiba que um filme é deles após 5 minutos de exibição.

Essa identidade passa por elementos que talvez não funcionem para todo mundo, pelo menos não nesse momento ainda. Talvez falte, fazendo aqui um paralelo com o mais recente filme deles, um processo de lapidação da linguagem cinematográfica dos irmãos. Digo isso porque Joias Brutas é uma obra autoral até a medula, mas, quando se trata dos Safdie, esse autoral traz coisas que fogem do que se tem como regra dentro do Cinema. Por exemplo, grande parte do que se quer passar na história não é feito pelo diálogo em si, mas pelo tom do diálogo. Mesmo que você não saiba falar inglês e veja o filme sem legenda, a cinematografia e a edição de som deixam claro a intenção do personagem, ainda que essa intenção quase sempre seja a violência, a ameaça, a agressividade. Funciona e funciona muito bem dentro da proposta do caos organizado dos irmãos, mas pode incomodar a você assim como me incomodou, em especial quando a isso é adicionada uma trilha sonora que segue quase que onipresente, alta demais e um tanto esquisita (na minha opinião), criando muitas vezes uma cacofonia que beira o insuportável. E em momento algum isso é mais óbvio do que no início do filme.

No entanto, superada essa questão, o que acontece depois de uns 15 minutos, o espectador provavelmente vai conseguir se aclimatar e absorver toda a epopeia pela qual passa Howard Ratner, interpretado com força incomum pelo “mito” Adam Sandler. O trabalho de Sandler realmente é muito bom, mas há de se notar aqui que esse é o papel dramático perfeito pra ele. Howard é um cara falastrão, esporrento, desbocado, fã de basquete e judeu, EXATAMENTE como Adam Sandler é em basicamente todos os filmes do gênero “filme de Adam Sandler” que ele protagoniza. Apesar de eu não concordar que seja uma atuação para Oscar como muito se falou por aí, Sandler carrega o filme com um elã de fazer inveja, conseguindo trazer nuances e camadas a um personagem que parece não ter nenhuma.

Já escrevi três parágrafos e ainda não falei porra nenhuma do longa. Peço perdão, mas julguei ser necessário fazer esse monte de ressalva para dizer que Joias Brutas é um belíssimo filme, com um roteiro nada menos do que magistral e uma direção que, se não é exatamente ortodoxa, também não é aquela coisa completamente esquizofrênica que aliena tanta gente de filmes autorais como esse.

Aqui temos uma história até bem batida. Howard Ratner é um joalheiro em Nova Iorque (cenário ubíquo dos irmãos Safdie) que tem um problema fortíssimo com jogo e está às voltas de conseguir negociar um valiosíssimo Opal Negro em um leilão. A isso somam-se problemas com a família, a namorada absurdamente gostosa interpretada muito bem por Julia Fox (que até pouquíssimo tempo atrás, segundo a própria, era só uma periguete na night de NY), suas dívidas monstruosas com gente perigosa e uma participação decisiva e excelente do lendário Kevin Garnett, um dos maiores jogadores da NBA de todos os tempos. Inclusive, eu tenho para mim que a ideia do roteiro dos irmãos Safdie e Ronald Bronstein – e posso estar falando a maior merda do mundo – veio justamente de uma admiração pela carreira desse jogador, cujo sobrenome é o de uma pedra que faz alegorias mil com tudo que acontece aqui, sendo que suas atuações em alguns jogos da NBA são cruciais pra narrativa.

Enfim, judeu-endividado-viciado-em-jogo-com-namorada-gostosa-tenta-freneticamente-resolver-seus-problemas. É isso. Só que é isso com uma assinatura que garante mais de duas horas de exibição de um filme tenso, que não para, que segue quase que documentalmente a vida de Howard e sua teimosia em querer fazer merda o tempo todo, o que me faz até lembrar de “Coringa” e a impiedosidade da história em fazer seu protagonista se foder, ainda que por um viés completamente oposto.

Trata-se de um filme de excelente execução, que usa o caos a seu favor e cria uma obra de assinatura clara e evidente, sedimentando o nome Safdie como o de realizadores inventivos, capazes e sem qualquer medo de quebrar com as regras para fazer aquilo que entendem enquanto arte. Isso, por si só, é louvável, mas, tal qual Tarantino, Scorsese e, para falar também de irmãos diretores/roteiristas, os irmãos Coen, eles conseguem unir entretenimento à sua assinatura, trazendo em Joias Brutas uma obra que tem várias camadas, mas que, sobretudo, diverte e mantém o espectador preso pelas suas mais de duas horas de duração.

Sugestões para você: