Pedro Almodóvar tem como clássico elemento o inesperado em seus filmes, anteposto pelo despretensioso. Em suas últimas películas há a presença de algum reviravolta ou altercação que torna o roteiro inacreditavelmente interessante. Em Julieta, a princípio, poderíamos dizer que ele desviou deste costume. A sinopse indica uma história comum, que englobaria uma mãe, conflitos com a filha e frustração como palavra chave para descrição da situação. Porém, ele surpreende e encanta pela simplicidade e, mais que tudo, sinceridade durante a construção do longa.

Julieta havia durante anos se escondido e dia após dia se forçado a esquecer do passado. Era como uma viciada em reabilitação contra a dor da perda; e, como tal, qualquer fragmento que passasse o gosto do enterrado mergulharia a mulher em profunda abstinência. O filme dialoga não só com a dor da perda, inerente à condição de ser, mas também com a dor trazida pelo amor – em sua ótica, o inexorável amor incondicional. E amar implica na perda, quase que inevitavelmente. A perda, no filme, é materna e devastadora. Uma escolha a dedo de cenas ornamentadas para que o telespectador se identificasse com o sofrimento, e sentisse nos olhos a angústia que perdurava na pele da personagem.

Contudo, ao sair da sessão de cinema, quando o título “Julieta” indicou que havia acabado, perguntava-me onde a tradicional polêmica ‘almodovariana’ se encontrava. Algumas teses foram formadas: um indicativo questionamento acerca dos certos e errados quando se trata de sentimento; ainda, se há certos e errados para a condução deles entre mãe e filha; e, mais que tudo, a volatilidade da vida e do que habita dentro de nós. “Julieta” torna-se polêmico num âmbito quase que antropológico. E, ao passo que por momentos aflige, conforta como um abraço de mãe depois de uma turbulenta noite de sono.

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