Quando eu tinha meus 10 anos, eu era um voraz leitor. Além dos muitos gibis da editora Abril, em especial o seminal A Espada Selvagem de Conan, eu também lia livros, muitos livros. Boa parte disso por influência do meu pai, que até hoje lê uns dois livros por semana. Foi ele quem me deu na mão, em 1992, um exemplar de “O Parque dos Dinossauros”, o livro de Michael Crichton que, um ano depois, veio a dar origem ao excelente “Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros” (que está ao mesmo tempo em nossos Top 10 – Filmes Dirigidos por Steven Spielberg e Top 10 – Filmes de Monstro), primeiro e indiscutivelmente melhor filme da franquia. Eu tinha em mãos pela primeira vez um livro de 500 páginas e escrito para adultos. Imediatamente eu fraquejei diante do desafio, mas foi só começar a ler para terminar em meros 3 dias.

E é ao olhar ao passado – ao livro e ao filme original – que eu me sinto mais triste ao estar aqui falando sobre este novo, agora o 5º, capítulo cinematográfico desta franquia. Tudo aquilo que me fez não largar o livro por 3 dias – ou ficar na beira do assento pelas mais de 2 horas de exibição do filme de Spielberg – simplesmente se perdeu. Ao invés da tensão de um T-Rex e da sensação onírica de aventura, temos aqui mais uma tentativa de emulação daquilo, com uma aposta quase que exclusiva em duas coisas que são, faça-se justiça, realmente extraordinárias: os excelentes efeitos especiais e o carisma magnético de Chris Pratt (que vem sofrendo da síndrome Robert Downey Jr. ao aparentemente interpretar a si mesmo a todo tempo) como Owen, ainda que este seja jogado para baixo por um roteiro cheio de piadinhas sem graça, maniqueísta e que em nada favorece seu personagem e tampouco o par romântico com Claire (Bryce Dallas Howard).

A história aqui é ainda mais forçada do que no primeiro filme desta “retomada” da franquia. Claire, a diretora do parque no primeiro, se tornou uma ativista dos direitos dos dinossauros e trabalha com uma galerinha super descolada num escritório que parece de uma startup dessas com gente “super criativa” e insuportável, inclusive seus amiguinhos Zia (Daniella Pineda) e Franklin (Justice Smith). Owen, depois de Claire tê-lo deixado pelo “absurdo” de não querer morar numa van com ele (não tinha uma motivação melhor?), está em algum lugar remoto construindo uma cabana com as próprias mãos, já que ele é daqueles heróis de antigamente que fazem tudo por si mesmos.

Por sua vez, a ilha onde o parque mais recente estava instalado está prestes a ser destruída pela erupção de um vulcão, o que, em um primeiro momento, exige uma só pergunta: Quem foi o imbecil que gastou bilhões num parque em uma ilha com atividade vulcânica? Não tinha ali uns 500 mil dólares a mais para encomendar um estudo geológico e descobrir que, puta que o pariu, um vulcão obliteraria a ilha em minutos após sua erupção dali a uns anos?

Enfim, ilha indo para o caralho, milionário bancando uma expedição para salvar os dinossauros, criança fofinha meio perturbada neta do milionário, mocinha e mocinho juntados pelas circunstâncias para salvar alguns dinossauros, em especial Blue, a velocirraptor com quem Owen tem uma relação paternal e única razão que faz com que ele decida voltar a ilha. É a partir daqui que a história se desenvolve e ela não vai por um bom caminho.

Apesar de um elenco com nomes de competência e talento comprovados – além dos protagonistas temos ainda os excepcionais James Cromwell e Toby Jones -, a direção e a montagem, também prejudicadas pelo roteiro extremamente previsível, em nada favorecem as performances. Curiosamente e como que uma comprovação de até onde a tecnologia chegou, as performances mais críveis são aquelas dos dinossauros, em especial de Blue. Esta questão tecnológica é um grande ponto positivo do filme, em especial no 1º ato, no qual os efeitos especiais dão vida de forma muito verossímil a todos os dinossauros, possibilitando até mesmo cenas realmente melancólicas como a de um pobre brontossauro lamentando seu destino.

Há ainda outros pontos positivos, todos em geral reservados à relação de Blue e Owen, que é muito mais aprofundada neste filme do que foi no anterior. Mas é só. O ritmo do filme incomoda, ele parece perder seu propósito no meio do caminho, as cenas de ação são genéricas, Owen, um behaviorista animal sozinho e desarmado, derrota uma dezena de mercenários de elite com golpes que dariam inveja a Starlord e o filme ainda faz questão de terminar com a fala mais brega e ridícula da qual tenho lembrança.

“Bem-vindo… Ao mundo dos dinossauros.”

Jurassic World: Reino Ameçado é um festival de efeitos especiais maravilhosos que até traz uma certa diversão em função deles e também do carisma de Chris Pratt, mas não passa disso. Fica longe de ser memorável em um nível tal que eu estou com dificuldade até mesmo de lembrar do filme completamente para poder escrever isso aqui. Em comum com o original, temos apenas um Jeff Goldblum em uma participação meio desnecessária e os dinossauros. A tensão e o espírito de aventura se perderam no meio do caminho neste 5º capítulo de uma franquia que só nos deu um título realmente bom (o primeiro), mas que, mesmo assim, continua dando dinheiro o suficiente para que continuar sendo produzida.

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