Hoje a Netflix lançou em sua programação em primeira mão, sem que a obra tenha sido lançada de qualquer outra forma oficial no Brasil antes, um longa que ostenta 3 títulos do Pride, 3 cinturões do UFC, 2 títulos da WBC, 2 da WBA, 1 da IBF, além de 3 unificações de título. De lambuja, temos ainda 1 título de homem mais forte do mundo, 2 La Liga, 1 Serie A italiana, 1 Libertadores, 1 Champions League e, finalmente, uma Copa do Mundo (e não vou nem falar do Carioca 2011). Se você não faz ideia do que eu estou falando, então ainda dá tempo de parar de ler aqui e ir fazer outra coisa da sua vida. Contudo, desconfio que absolutamente todo mundo que tenha clicado para ler uma resenha sobre este Kickboxer – A Retaliação saiba exatamente a que me refiro.

Em tela não temos atores reconhecidos por sua verve artística e estilo sofisticado de interpretação, mas, sim, lutadores de MMA, aquele que é largamente tido como o maior peso pesado da história do boxe, o homem mais forte do mundo e o Ronaldinho Gaúcho (que serve tão somente para chutar bolas no protagonista e treinar sua esquiva). É sério. O elenco desse filme mais parece um card de luta ou a convocação pra uma pelada de final de ano de amigos do Ronaldinho do que uma lista de atores. Temos aqui lendas dos esportes marciais como Mike Tyson, Frankie Edgar, Renzo Gracie, Renato Babalu, Shogun, Werdum, Roy Nelson e Wanderlei Silva. Este último, conhecido no Brasil como cachorro louco mas lá fora como “The Axe Murderer” (O Assassino do Machado), aparece justamente com um machado correndo atrás do protagonista em um sonho sem pé nem cabeça.

Para coroar esta lista, ainda tem o Ronaldinho Gaúcho e o gigantesco Hafþór Júlíus Björnsson, o Montanha de Game of Thrones, interpretando evidentemente o malandro que sentará a porrada em nosso herói para ao final perder espetacularmente.

Quero fazer a ressalva desde já de que eu gosto e gosto muito do cinema de artes marciais. Já indiquei alguns filmes do gênero em nosso Garimpo Netflix: Filmes de Ação!, além de ter confessado uma paixão quase erótica pela franquia Serbuan Mauat, aquele filme indonésio de porrada que chegou há alguns anos simplesmente para arruinar todos os outros filmes de artes marciais lançados desde então. Se você gosta de filmes de pancadaria, faça-se este favor e vá assistir, um deles tem na Netflix.

E, puta que o pariu, que desgraça que foi lutar contra o sono e o enfado na 1h50m de exibição deste filme. Filmes do gênero, quase que por definição, não se preocupam com roteiro, atuações ou desenvolvimento de personagem. O que interessa mesmo é bico na cara e ninguém em sã consciência acredita que sairá de uma exibição de um filme desses com uma nova visão de mundo. Ocorre que Kickboxer não só vai longe demais na sua falta de compromisso com qualquer qualidade artística, como sequer as cenas de luta são lá uma grande maravilha.

À exceção de uma cena filmada em um plano sequência dentro de um presídio – que é mais impressionante pelo esmero técnico e coreográfico de uma cena tão longa em uma tomada só do que pela ação em si, pegando claramente emprestada a brilhante e melhor executada cena do tailandês “O Protetor“, com o espetacular Tony Jaa (que você pode assistir aqui) -, as cenas de ação são genéricas e sem muita imaginação. Por vezes eu me peguei lembrando que alguém já tinha feito a mesma coisa de maneira melhor e mais original. Há uma cena, por exemplo, em que o protagonista avisa ao sujeito quais serão as lesões que os caras que ele lombrará no cacete sofrerão. Isso é praticamente a mesma coisa que acontece em “Kung Fu Killer” com o lendário Donnie Yen.

Enfim, tem-se uma história patética em que Kurt Sloane (Alain Moussi, dublê de vários filmes famosos e protagonista de filmes de porrada meia boca que saem direto para DVD) precisa voltar a Tailândia para uma luta até morte contra o Montanha. Importa o porquê disso? É claro que não, mas o diretor resolveu que passaria quase duas horas tentando explicar a motivação do rapaz, enchendo uma linguiça violenta com seu relacionamento com sua esposa ladyboy tailandesa, apresentando um vilão bicho papão vivido pelo risível Christopher Lambert (infelizmente nosso Highlander mantém sua cabeça aqui) e, principalmente, mostrando o personagem de Jean-Claude Van Damme como uma espécie de Pai Mei do Kickboxing, só que dessa vez ele é cego, muito embora ele acompanhe com os olhos todo mundo que está em cena com ele.

Com cenários que parecem de videogames ruins da década de 90, um desenho de produção horrendo e interpretações que talvez nem devessem levar a honra de assim serem chamadas, Kickboxer não consegue sequer entreter na sua única proposta: a porradaria. A dica que deixo é, se você quiser ver uma boa trocação envolvendo as estrelas deste filme, escreva Wanderlei Silva ou Mauricio Shogun no YouTube e seja feliz.

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